Tudo acontece tão rápido. Meu professor de história falando mal do Mel Gibson enquanto uma gargalhada enorme é solta atrás de mim por uma rodinha de conversa da qual prefiro não citar nomes. O headphone pinicando os fios de cabelo na minha nuca, e o ventilador da sala cortando em fatias o ar fazendo um som parecido com vush, vush. O sorriso amarelo do meu professor ao terminar a critica contra o Mel Gibson, a bolinha de papel jogada do fundo da sala bate na borda da cesta de lixo e caí para fora. Barulho de cadeira sendo arrastada, um "ô profêh" gritado do fundo da sala chama a atenção do professor que procura o sujeito que gritou. Maldita hora que levantei para vir à escola aguentar isso, penso eu. O professor volta a atenção dele para mim, e sorri novamente ao criticar os filmes japoneses. Riu timidamente, o professor disserta mais, gesticula, e eu solto um sorriso oblíquo. Uma menina escrevendo o endereço do twitter dela na lousa, e eu vasculhando cada canto da sala com os olhos, de boca fechada e ainda balançando a cabeça positivamente com aquele sorriso oblíquo para o professor como se eu estivesse concordando com tudo. A porta bate, a menina grita, o professor gesticula e critica, a estudiosa escreve, o menino comenta a última rodada do brasileirão, e eu... porra, eu estou no meio disso tudo. É como um bebê no meio de uma guerra vietnamita. De repente, o professor tira o sorriso do rosto, e tudo fica quieto, olho para trás e vejo a paciencia do professor estourar contra o pessoal do fundo da sala. Bum, shh, BUM, shh. Meus dias são assim.
E mesmo que eu fale que meus dias são assim, devo confessar que tudo isso ocorreu em menos de dez segundos.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Existem muitos poucos anjos que cantam
Existem muitos poucos cães que latem
Mil violinos cabem na palma da minha mão
Mas está chorando um enorme cão
E o choro é um enorme anjo
E o choro é um violino imenso
Lágrimas calam o vento
E não podem ouvir outro a não ser o choro
Frederico Garcia Lorca (por Javier Beltrán) no filme "Little Ashes" de Paul Morrison, 2008, Reino Unido
Existem muitos poucos cães que latem
Mil violinos cabem na palma da minha mão
Mas está chorando um enorme cão
E o choro é um enorme anjo
E o choro é um violino imenso
Lágrimas calam o vento
E não podem ouvir outro a não ser o choro
Frederico Garcia Lorca (por Javier Beltrán) no filme "Little Ashes" de Paul Morrison, 2008, Reino Unido
sábado, 12 de novembro de 2011
O que quero que volte para mim é o que acredito que me fará bem
O que acredito é o que vejo
O que vejo é o que vivo
O que vivo é o que sinto
O que sinto é o que não entendo
O que entendo é o que escrevo
O que escrevo é o que sei
O que sei é o que aprendi
O que aprendi é o que papeio
O que papeio é o que jogo contra o vento
O que jogo contra o vento é o que quero que volte para mim
O que acredito é o que vejo
O que vejo é o que vivo
O que vivo é o que sinto
O que sinto é o que não entendo
O que entendo é o que escrevo
O que escrevo é o que sei
O que sei é o que aprendi
O que aprendi é o que papeio
O que papeio é o que jogo contra o vento
O que jogo contra o vento é o que quero que volte para mim
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Prazos
Vai tudo ficar bem, mês que vem tá aí, penso eu. Chega o mês seguinte, e nada acontece. Então me dou um novo prazo. Esse prazo estoura mais uma vez, e nada acontece de novo. Me dou mais um prazo, e vou me dando prazos até algo acontecer.
Isso não me deixa respirar.
Isso não me deixa respirar.
domingo, 23 de outubro de 2011
Canja de amor
- 2 porções de tolice
- Uma grande porção de "eu te amo" para crescer
- 1 kg de insônia
- 5 litros de paciencia
- Uma grande porção de "eu te amo" para crescer
- 1 kg de insônia
- 5 litros de paciencia
Cigarros
Estou acordando cedo ultimamente. São Paulo pela manhã é uma São Paulo diferente, de ar mais respirável, de pessoas mais lentas, de rostos mais sonolentos, de motoristas de ônibus ainda de bom humor e do cheiro dos pães passeando a quinhentos metros da padaria. Meu pai engraxa o sapato severamente como se estivesse o castigando, e minha mãe faz o café ainda soltando alguns bocejos. Lá estou eu, de novo na varanda, amarrando meu all-star, e olhando para o céu ao fundo mesclado com a luz da noite e o nascer do sol surgindo atrás do limite da paisagem.
A vizinha está acordada também, e sua cadela está latindo fazendo o latir ecoar até o final da minha rua sem saída, onde moro. Sempre há um som de portão de garagem sendo erguido, e som de motor sendo esquentado. Eu bocejo, bocejo muito. Nunca fui fã de acordar cedo, nunca fui fã de muita coisa além de coca-cola, vídeo-games, zumbis, filmes e livros. Minha vizinha passa de um lado ao outro no quintal dela, vai até o varal e pega alguma blusinha - como as mulheres delicadamente apelidam - e entra na casa dela de novo. Eu ainda estou sentado na varanda, estou curiosamente olhando para as poucas luzes amarelas ligadas nas varandas e janelas dos prédios. Levanto, vou até a cozinha, pego café, abro o notebook na mesa e twitto "bom dia twitter". Bocejo. Saiu de novo. Minha vizinha saí de casa com um cigarro no canto da boca e o maldito cheiro da nicotina chega aos meus pulsões. Cuspo o cheiro pelo nariz.
Saiu de casa, e na esquina há um morador na frente da casa fumando tranquilamente e olhando o passar das pessoas de um lado para o outro. Ele me encara, e sou obrigado a desejar bom dia. "Bom dia" eu digo. "Bom dia" responde o morador com a voz rouca e sonolenta. Depois da breve troca de palavras continuo andando sem olhar para trás. No ponto de ônibus avisto mais dois fumantes fumando tranquilamente. Me sento num daqueles bancos do ponto de ônibus e torço para o cheiro maldito do cigarro não chegar até mim. Em vão, o cheiro parece me procurar, e os ventos parecem estar sempre contra mim quando me deparo com esse tipo de situação. Bocejo.
O ônibus chega e eu o tomo, enquanto subo, os fumantes jogam o cigarro no chão e pisam em cima. O cheiro da fumaça do cigarro se mistura com o cheiro da fumaça do ônibus e fode tudo, o mundo chega a girar. Sento sempre no último banco do ônibus, me acomodo, ponho a mochila no meu colo e passo a viagem inteira olhando pela janela. Bocejo. E bocejo de novo, fazendo uma careta estranha, abaixo a cabeça, e depois vergonhosamente ergo-a e confiro se tem alguém que riu do meu bocejo.
A cada ponto de ônibus vejo mais fumantes, aonde quer que eu vá há fumantes, parece uma epidemia onde todos estão doentes. Há fumantes no ponto de ônibus, na frente das padarias, nos estacionamentos de lojas, na frente do super-mercado, na frente das escolas, checando o jornal do dia na banca de jornais, nos camelôs, em todo lugar. É horrível.
Após um dia cheio, volto para casa cansado e com o cheiro da nicotina ainda no pensamento. Na volta vejo mais fumantes. Eles tragam até encherem os pulmões e depois soltam toda a fumaça guardada nos pulmões para fora, como uma grande usina liberando fumaça dos fornos gigantes.
Há uma mulher bonita parada numa padaria, está fumando. Ela tem cabelos louros, está de calças jeans, e está com uma blusa branca apertada. Ela é provocante. Seus lábios são finos, e seu nariz empinado. O cigarro está no canto da boca e ela meche no celular. A fumaça diante de seus olhos castanhos me lembra o trecho daquela música do Arctic Monkeys "the cigarette smoke in your eyes...". Chega um homem, com um carro simples, ela entra e vai embora. Da padaria saí um homem com um maço de cigarros ainda lacrado. Sua roupa está suja de poeira, e suas calças surradas estão rasgadas. Ele caminha até a obra de um prédio ali por perto.
Lá estou eu andando de novo, sento e espero o próximo ônibus a pegar. Um homem gordo com um cigarro na boca vem costurando a multidão parada no ponto segurando a mão de sua provável filha. A menina se senta ao meu lado e observa o pai fumando.
Não muito longe desse pai fumante há um outro fumante e ao seu lado mais outro fumante, que tem ao seu lado um outro fumante gordo, que tem ao seu lado uma fumante idosa e magra com um batom feio nos lábios, que ao seu lado tem um jovem magrinho fumando também, que ao seu lado tem um homem alto de óculos estranhos fumando, que ao seu lado tem um pai fumante fumando que tem uma filha que provavelmente estará fumando também daqui uns anos, e estará estragando e sobrecarregando mais uma das minhas manhas fumacentas e mal-cheirosas.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Aqui estou...
E aqui estou escrevendo romances fictícios, saciando minha sede de amor correspondido. Eu sozinho na sala de estar, onde apenas o barulho de teclas é possível escutar. Aqui estou, desenhando corpos, seios murchos, e vaginas delicadas. Aqui estou descrevendo arranhões, prazeres, beijos e pecados. Aqui estou sonhando com a garota de cabelos vermelhos que um dia me tirou dos sonhos e me trouxe a realidade. Sim, me trouxe a realidade. Eu vivo constantemente num mundo sonhador, onde todos são apenas complementos para uma cena diária que vai ser filmada com meus olhos. Ela me tirou desse mundo sonhador e me trouxe a realidade, me pondo um belo par de chinelos para pisar na lama, me dando beijos que era possível ser sentido, me colocando horas na cama agarrado a ela e aquele moletom branco com mangas maiores que seus braços. Tudo acabou e eu voltei ao meu mundo perguntando-me "isso é realidade?" e outrora falava a mim mesmo desiludido "Cansei de escrever personagens, quero sentir aquilo de novo, cansei de dizer eu te amo em livros, quero falar de verdade, quero sair desse mundo editável" e me tranquei em meus pensamentos. Não chorei. Engoli algumas coisas e disse a mim mesmo "vá arrumar um problema de verdade e venha dizer que chorou depois, seu idiota".
Aqui estou, o escritor que só sente algo por seus personagens perfeitos, por suas personagens compostas e de mente bem estruturada, por seus personagens sonhadores como ele, e por seus personagens de coração ofegante e teimoso. Aqui estou, está noite, pedindo não teus seios, não beijo, não teu abraço... Aqui estou eu apenas desejando você sentada ao meu lado com seu maço de cigarros e seus cabelos presos por aquela presilha de joaninha, apenas quero sentir sua presença.
Aqui estou, o escritor que só sente algo por seus personagens perfeitos, por suas personagens compostas e de mente bem estruturada, por seus personagens sonhadores como ele, e por seus personagens de coração ofegante e teimoso. Aqui estou, está noite, pedindo não teus seios, não beijo, não teu abraço... Aqui estou eu apenas desejando você sentada ao meu lado com seu maço de cigarros e seus cabelos presos por aquela presilha de joaninha, apenas quero sentir sua presença.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Eu, eu mesmo, e eu de novo
A música estava alta e eu queria sair dali. Sentei no balcão e pedi uma última bebida. Degustei a bebida sozinho, bochechando ela de um lado por outro na boca para sentir melhor o gosto, sei que foi nojento. Um homem sentou-se ao meu lado.
"dia difícil?" perguntou ele se acomodando no banco de longas pernas.
"vida difícil, companheiro" respondi.
Ele riu ridiculamente.
Era uma boate estranha, as paredes tinham um papel de parede vermelho com pequenas flores douradas e o chão era coberto com um carpete cor de vinho. As luzes eram vermelhadas, e a única cor mais clara era o branco dos guardanapos debaixo dos copos quase vazios de whisky.
"Aceita mais uma bebida?" perguntou ele.
"whatever" respondi.
Foi me entregue um coquetel ridículo, havia um perqueno guarda-chuva junto ao limão, parecia, mas não era, caipinha; estava mais para algo mais forte. Tomei de uma vez.
"Oh-oh, vai com calma!" disse o homem.
"E quem disse que eu deveria?" respondi.
"Tem uma mulher te encarando na mesa quatro, olhe discretamente" disse o homem.
Eu olhei. Ela era ruiva, tinha olhos castanhos esverdeados e sua pele era branca com um belo par de bochechas rosadas.
"Vai lá" disse o homem.
"Hã? Vai lá onde?"
"Vai ir falar com ela" disse ele.
"Eu preciso ir para casa" aleguei.
Eu me levantei, e deixei vinte reais sob o balcão, cambaleando tentei ir até a saída. Sim, tentei. Após ter levantado ouvi um enorme estrondo, e tudo começou a tremer, como um violento terremoto. Tudo começou a cair das prateleiras, a cair no chão, mas, tinha algo errado; parecia ser só eu a estar ligando para o terromoto, todos continuavam a comer, dançar, jogar, como se nada estivesse acontecendo.
"O que está acontecendo?!" perguntei ao homem.
"Shh, não se altere" disse ele.
"Esse lugar vai vir desmoronar"
"não vai" disse o homem tranquilamente tomando sua bebida enquanto poeira sujava seu cabelo curto e negro.
"Onde estamos?" perguntei.
"Onde parece?" retrucou ele.
"O Japão" chutei.
"Por que o Japão?" perguntou o homem.
"Tem tantos terremotos por lá que eles nem devem mais correr quando um começa" disse eu.
O homem riu.
"Não é o Japão" disse ele.
O homem se levantou e jogou o copo no chão. O copo espatifou-se em milhões de pedaços. Eu não estava entendendo nada, eu olhava para todos a minha volta esperando uma resposta.
"Olhe isso" pediu o homem.
O homem direcionou sua mão aos cacos do copo de vidro no chão e sua mão começou a tremer. Os cacos do copo de vidro começaram a se mexer, uns começaram a flutuar a poucos centímetros do chão, até que, os cacos de vidro começaram a se juntar, a se reintegrarem, a formar novamente um copo. O cacos se juntaram e finalmente formaram o copo novamente, e num movimento de mão, o homem fez o copo rapidamente se atrair a mão dele.
"Ok. Isso é estranho" disse eu.
O homem riu e estralou os dedos.
Fomos teletransportados para um lugar escuro, eu não enxergava nada além da escuridão e do rosto e corpo do homem; era como se ele fosse a única coisa iluminada naquele lugar, um holofote parecia estar sob ele.
"Onde estamos?" perguntei.
"Adivinhe" disse o homem.
"Primeiramente, quem é você?" disse eu me perguntando como não tinha feito aquela pergunta antes.
O homem riu.
"Ah, qual é? Sério mesmo?" disse o homem.
"Eu pareço estar brincando" disse eu apontando para meu rosto.
"Não, é sério mesmo? Não me reconhece; cabelos negros e curtos, olhos castanhos, grande, musculoso, e não usa gravata" descreveu-se o homem.
"Eu não te conheço" disse eu.
"Ahh, poxa, não está tão na cara assim? Caramba" disse o homem se frustrando.
O homem começou a desabotoar a camisa.
"O que está fazendo?"
O homem continuou a desabotoar a camisa e a tirou.
"Olhe para as minhas costas e diga que não me conhece" disse o homem.
Havia uma cicatriz gigante em forma de pentagrama nas costas do homem, e sim, eu o conhecia.
"Não pode ser" disse eu desacreditado.
O homem revestiu a camisa.
"Você é o Ryan Houser, um dos meus personagens" disse eu.
"Bingo!"
"Como?" perguntei.
"Eu estou dentro de você, lembra?" disse ele.
"Então nós estamos..."
"Dentro da sua mente" disse ele.
Olhei em volta, e não gostei do que vi, esperava mais.
"Minha mente é um grande nada sendo que eu tenho milhões de coisas misturadas dentro dela?" disse eu.
"O que você esperava que fosse? A Disney?"
"Ou uma casa na praia com a Mila Kunis, Lindsay Lohan, e mais algumas prontas para fazerem sexo o dia inteiro" disse eu sorrindo.
"Que tolice" disse ele.
Baixei a cabeça.
"Siga-me" disse Ryan.
O segui. Quando percebi estávamos numa sala grande e aconchegante.
"Espera, eu conheço esses quadros e esse sofá" disse eu.
"Com certeza" disse Ryan.
"Foi aqui que..." algo me interrompeu.
Um menino louco começou a correr pela sala, e depois foi para a cozinha, eu e Ryan o seguimos. O menino estava agora na varanda e estava chovendo.
"Oh, meu Deus!" disse eu.
O menino estava sendo repreendido por um homem barrigudo mas nem tanto, e estava querendo descer as escadas, mas o pai não deixava pois estava chovendo.
"Meu Deus, Ryan. Esse menino sou eu, e esse homem é meu pai" disse eu.
"Percebi pela agitação" disse Ryan.
"Oh, meu Deus. Esse foi o dia em que eu quase morri por ter escorregado e batido a cabeça na quina do degrau" disse eu alarmado.
O homem voltou para dentro de casa, e o menino ficou olhando para escada a baixo.
"Eles não podem nos ver?" perguntei.
"Logicamente, não" disse Ryan.
O menino rapidamente sacou o guarda-chuva e desceu a escada correndo.
"NÃO VOCÊ VAI..."
O menino escorregou e "ploc" fez o barulho da cabeça batendo no degrau. O menino soltou um grito agudo seguido de um choro beberrão.
"... cair" terminei a frase.
Vi o menino correr para os braços da mãe com a mão cheia de sangue, e olhei o degrau ali, machado de sangue e a água escorrendo entre o liquido vermelho.
"Precisamos continuar" disse Ryan que puxou-me pelo braço.
Num piscar de olhos estávamos numa sala de aula.
"Essa é minha sala de aula na quinta série? Oh meu Deus!" disse eu.
"Sim. Foi aqui que você escreveu no inicio do primeiro bimestre 'Guerra do Universo' lembra?" perguntou Ryan.
"Não sei onde foi parar esse conto" disse eu.
"Olha para você, não para de olhar para ela" disse Ryan.
"Olha para quem?" disse eu.
"Olhe para você ali na segunda cadeira depois da porta, com ela a seu lado, você pequeno e com aquele cabelo grande. Você sabe quem é aquela menina Danilo, depois dela todas as suas personagens românticas e filhas de personagens tiveram o nome dela" disse Ryan.
"Amanda... Amanda Silveira" disse eu.
"Foi uma paixonite né?" perguntou Ryan.
"Foi a paixonite mais séria que eu já tive" disse eu.
Vamos continuar a andar. N'outro piscar de olhos nós já estávamos em outro lugar. Olhei em volta.
"Esse foi o dia em que eu ganhei meu primeiro vídeo-game?" perguntei.
"Exatamente" disse Ryan.
Olhei para o relógio da cozinha, marcava onze e cinquenta e três da noite.
"Fazia tempo que eu não via esse relógio, meu irmão vai quebrar ele daqui dois dias. Meu pai deve chegar daqui a pouco" disse eu.
Meu pai começou a subir as escadas só com a mochila dele nas mãos.
"Nessa hora eu pensei que ele não tinha comprado o vídeo-game, mas estava dentro da mochila dele" disse eu sorrindo.
"Você ficou bem feliz" reparou Ryan.
"Temos que continuar a andar" disse Ryan.
Mais um piscar de olhos e estávamos num apartamento grande e luxuoso.
"Eu não conheço esse lugar" disse eu.
Ryan riu.
Havia uma linda menina ruiva brincando no tapete da sala fazendo um castelo de livros e colocando algumas bonecas no topo. Depois apareceu uma mulher linda, também ruiva, que chamou a pequena garota de filha, e depois apareceu descendo as escadas do apartamento um rapaz alto, todo vestido com roupas sociais, e uma pasta na mão. Parecia pai, mãe e filha os três, e eram.
"Eu não conheço nenhum desses três, Ryan. Principalmente esse almofadinha metido a grã-fino, e outra, ele usa gravatas e eu odeio gravatas, aff, nunca usarei gravatas. Ele é casado com essa mulher também? Aff, esse cara não tem cara de homem casado. Que babaca" disse eu.
Ryan riu novamente.
"Quem são eles? E quem é esse homem?" perguntei.
"Você"
"Eu o quê?" perguntei.
"Ele é você, no futuro" disse Ryan.
Eu ri.
"O Ryan Houser não podia prever o futuro" disse eu.
"Não seja por isso" disse Ryan.
Ryan estralou os dedos e uma fumaça branca o encobriu. Quando a fumaça foi dispersa, um novo homem apareceu, outro de meus personagens.
"E eu? Eu vejo o futuro?" perguntou o homem.
O homem que Ryan Houser se transformara era um outro personagem meu, seu nome era Jacob.
"Inteligente você se transformar no Jacob só porque ele é um personagem meu que pode prever o futuro" disse eu.
"É meio egocêntrico você dizer que eu sou inteligente já que eu sou você por viver dentro da sua mente" disse Jacob.
"Como eu me tornei ou me tornarei, sei lá, como eu fiquei desse jeito?" perguntei.
"Você seguiu o que seu pai disse, fez os cursos que seu tio indicou, e a faculdade de programação de computadores lhe rendeu um ótimo emprego" disse Jacob.
"Que lugar é esse? Digo, onde exatamente estamos?" perguntei.
"Vá até a janela e veja com seus próprios olhos" disse Jacob.
Caminhei até a janela passando entre o casal e a filha brincando e sorrindo na sala. Abri a cortina e olhei para fora da janela.
"OH MEU DEUS! Aquele é o Empire State?!" perguntei.
"O próprio" respondeu Jacob.
"Eu irei morar em Nova York, como sempre quis, esse é meu sonho" disse eu.
"Será mesmo?" perguntou Jacob.
"E por que não seria?"
"Olhe a sua volta, você vê alguma... câmera?" perguntou Jacob.
Olhei a minha volta e sim, não havia nenhuma câmera. Desde sempre meu sonho mais tenaz era de ser cineasta e eu jurei a mim que antes de ter filhos eu teria muitas câmeras em casa e já estaria formado na faculdade de cinema.
"Agora eu sei o porquê de eu não querer fazer a faculdade que meu pai disse que era para mim fazer" disse eu cabisbaixo.
"Seu pai né? Sempre seu pai" disse Jacob.
Jacob bateu palmas, e uma fumaça envolveu-se no corpo dele, quando a fumaça sumiu Jacob tinha se transformado na figura do meu pai.
"Pai?" não acreditei.
"Sim. Aqui estou" disse meu pai.
"Mas você não é nenhum dos meus personagens" disse eu.
"Ora Danilo, convenhamos que eu estou em quase todos os seus livros, eu sempre sou um pouco um dos vilões, ou até mesmo alguma barreira, ou o pai de algum adolescente rebelde, como você escreveu em 'Sexo, Drogas, e Rock n' Roll'" disse meu pai.
Pensei. Era verdade. Meu pai estava em quase todos os meus livros, pude ver naquele momento que meu pai estava mais envolvido comigo do que eu imaginava.
"Por que você está aqui?" perguntei.
"Para fazer você tomar a escolha certa" disse ele.
"O senhor sabe que eu tomarei" disse eu como sempre.
"Não. Você precisa de mim. Eu sei muito bem como é o mundo lá fora, você não vai conseguir simplesmente segurar uma câmera e ganhar dinheiro no exato momento" disse ele.
"Esse é seu problema. Por que tudo tem que ter uma recompensa financeira? Por que não pode ser para meu bem-estar?" perguntei.
"Porque eu fiz isso, e se eu tivesse sacrificado algumas bobeiras que eu fiz quando eu tinha sua idade hoje teríamos uma condição financeira muito melhor" disse meu pai.
"Eu quero fazer cinema" disse eu.
"Esse é seu sonho?" perguntou meu pai.
"Sim" disse eu.
"Você sabe que não é só isso? Por que você continua achando que o mundo não será tão difícil de ser levado se você olhar ele com outros olhos? É como aquela velha crença, se você acreditar na macumba, ela ficará tanto na sua cabeça que você ficará psicótico, e sem perceber você mesmo irá se condenar" disse meu pai.
"Como assim esse não é meu único sonho?" perguntei.
Meu pai bateu palmas duas vezes e a fumaça retornou, cobriu o corpo dele, e dessa o transformou em uma pessoa da qual eu não esperava jamais ver na minha frente... Eu mesmo.
"Você... Você é eu?" perguntei.
"Sim, Danilo. Eu sou o Danilo" disse o outro eu.
"Você pode responder minha pergunta?" perguntei.
"Você que tem que responde-la. Você sabe a resposta" disse o outro eu.
"Ok... Ok, Eu - isso soou estranho - Se eu soubesse eu não teria perguntado" disse eu.
O outro riu. Não gostei da minha risada, ou melhor, da risada dele... Ah esquece!
"Você já fez tantas perguntas até aqui, e todas foram respondidas" disse o outro eu.
"Sim. Mas os outros eram meus personagens, não meu clone, por isso você não deve saber as respostas" disse eu.
"tsc, tsc. Você é um babaca. Se todos os personagens vivem dentro da sua mente, todas as falas e respostas deles também, ou seja, todas as perguntas que você fez anteriormente foi você mesmo que respondeu, inclusive isso agora" disse o outro eu.
"Como eu saio daqui?" perguntei.
"Se você responder aquela pergunta eu deixo você sair" disse o outro eu.
"Que pergunta?" perguntei.
"Aff, que babaca. A pergunta 'Como assim esse não é meu único sonho?' sacou, babaca desligado?" disse o outro eu.
"Eu não tenho outro sonho" disse eu.
"Pare e pense. Nem ser cineasta é seu sonho, Danilo. Seu sonho é outro" disse o outro eu.
Parei para pensar. Pensei em todas as alternativas de escolha que meu pai me dava e pensava no caminho que eu queria seguir, o do cinema, este o qual ninguém da minha família, inclusive meu pai, apoiava. Eu só queria poder fazer cinema, mas eu não queria decepcionar meu pai principalmente, eu queria deixá-lo orgulhoso. Mas no fundo, deixar meu pai orgulhoso não era meu sonho, e então pensei mais um pouco, sim, eu sabia a resposta.
"Que demora, hein?" disse o outro eu.
"Eu sei a resposta" disse eu.
"Não erre"
"Meu sonho é fazer o que eu quero e não me sentir mal por causa disso" disse eu.
Meu outro eu soltou um sorriso.
"Como diria você 'Congratulations, little zombie'" disse o outro eu.
Voltei ao lugar escuro, o holofote agora estava sob o meu outro eu.
"Como eu estou pensando nisso tudo?" perguntei.
"Você está sonhando" disse meu outro eu.
"Eu não lembro de ter ido dormir e começado a sonhar" disse eu.
"Aff, Dan. Você como bom admirador de cinema deve ter assistido A Origem com Leo di Caprio, como você o chama" disse meu outro eu.
"E daí? Vai falar agora que eu me sedei para sonhar com isso" disse eu.
"Numa parte do filme o personagem do Leo di Caprio diz 'Você nunca se lembra do começo de um sonho', você se lembra de ter chegado à aquela boate?" perguntou o outro eu.
"Não. Eu devia ter me lembrado da ideia desse filme" disse eu.
"Você anda pensando muito nisso, não é de se espantar que você tenha criado esse pequeno conflito num sonho. Apenas siga o seu caminho" disse o outro eu.
"Eu não ando sonhando muito" disse eu.
"Não se esqueça disso aqui. E continue escrevendo, fiquei sabendo que anda ganhando leitores novos" disse o outro eu.
"Nós ganhamos" disse eu.
O outro eu bateu palmas duas vezes.
Acordei quase cuspindo meu pulmão, além de me assustar com o som irritante do despertador. Desliguei o despertador e me levantei.
Fui até o banheiro e molhei o rosto, a rotina estava começando. Com o rosto molhado olhei para eu no espelho e cochichei a mim mesmo:
"Bem-vindo de volta ao mundo real, little zombie".
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Depois da meia-noite tudo pára. A cidade parece enfim poder se tranquilizar, parar de ofegar, e secar seu suor; ter um momento de paz. É noite, logicamente. O dia vai terminando e com ele tudo vai repousando esperando por amanhã. Eu exausto e olhando para tudo com aquela cara de nãoqueroacordaramanhãcedoporqueavadiadaminhaprofessoradeliteraturavaiseestressar e com um pouco daquela cara de nãovoutomarcafédireitoeoonibusvaiestarcheioeaspessoasvãopisarnomeupé. Na padaria os últimos copos americanos em que foram servidos vários e vários café com leite vão sendo lavados, e consequentemente batidos uns nos outros quando postos na secadora. Na rua os últimos carros parados no semáforo, as últimas motos a fazerem barulho com aqueles motores do inferno, e engraçado, as primeiras mulheres com meias calças rasgadas chegam as janelas dos veículos. Os últimos cigarros são fumados, as últimas pessoas cansadas se espremem no ônibus, e os últimos mendigos se enrolam em algum banco de praça. A luz alaranjada do poste pisca, o silêncio parece ser o barulho mais irritante da noite numa cidade onde até colocar o telefone publico no gancho chama a atenção. Os primeiros festeiros e bêbados chegam a boate de duzentos reais a meia entrada; com suas jaquetas diferentes e aparentemente caras, e seus óculos gigantes contrastando com um boné new era. Lá estão, os últimos civics da noite, eles são cinzas, quase nunca pretos, e sempre estão com os vidros fechados e parados na faixa do meio.
É engraçado essa tipica noite, parece que tudo tem que ocorrer como sempre ocorre, e se alguma noite é diferente é porque teve algum acidente na imigrantes. E então, eu levanto e pego o último ônibus que não vai para Nova York, ou até Londres (onde eu queria estar talvez) e sim para o último lugar no mundo que ás vezes eu quero estar, meu bairro onde todos ficam perguntando o porquê de eu ter parado de sair com os amigos que é onde fica minha casa onde minha mãe diz que fico muito preso no quarto que é onde eu escrevo esse tipo de coisa até a noite virar dia, eu acordar em meio a sulfites cheios de linhas, e a rotina recomeçar.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Vivo triste
Aqui e ali
Vivo dando risada
Ali e aqui
Escrevo sobre meus dias
Escrevo sobre melancolia
Escrevo sobre felicidade
Escrevo sobre escravos na minha cidade
Escrevo sobre sofrimento
Escrevo sobre esquecimento
Escrevo sobre ruivas
Escrevo sobre sexo
Para passar o tempo
Pego algum tonto
E desenvolvo um papo sem nexo
Vivo triste
Aqui e ali
Vivo dando risada
Ali e aqui
Para muitos sou triste
Para outros sofri
Para a minha mãe preciso sair
Para o meu pai preciso fluir
Para a minha avó isso é viver
Para mim isso é tudo teatro
Eu é que gosto de escrever
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Ultimamente estou sem inspiração. Ultimamente estou sem Coca-Cola. Ultimamente estou sem sexo. Ultimamente estou sem abraços. Ultimamente estou sem dinheiro. Ultimamente estou sem energia. Ultimamente estou sem sulfites. Ultimamente estou sem canetas. Ultimamente estou sem sonhos. Ultimamente estou sem dores no joelho. Ultimamente estou sem livros novos. Ultimamente estou sem sorrisos. Ultimamente estou sem músicas novas. Ultimamente estou sem ver o sol nascer. Ultimamente estou sem acertar cestas no basquete. Ultimamente estou sem viajar. Ultimamente estou sem beijos. Ultimamente estou sem paciência. Ultimamente estou sem vontade de falar com você. Ultimamente estou sem ver bondade em alguém. Ultimamente estou sem quietação. Ultimamente estou sem ar. Ultimamente essas coisas estão me sufocando. Ultimamente estou querendo ficar longe dos amigos. Ultimamente vem sido mais interessante ser invisível. Ultimamente estou com sono. Ultimamente estou com preguiça. Ultimamente preciso me alegrar. Ultimamente estou fazendo despretensiosamente tudo ao contrario do que eu devia fazer. Ultimamente todos estão reparando em mim. Ultimamente estou precisando esquecer tudo isso.
sábado, 10 de setembro de 2011
Se eu passar a mão na minha nuca ainda posso sentir a cicatriz de aproximadamente três centímetros. Eu lembro do dia em que ganhei essa cicatriz, estava chovendo, eu lembro de não querer ir à igreja naquele domingo, lembro da forma insistente que pedi para minha mãe fazer bolo, e do jeito rude que meu pai avisou para eu não descer até a casa da minha avó. Eu desobedeci. Numa virada de costas do meu pai eu saquei o guarda-chuva que ali estava pendurado e desci na chuva. Faltando quatro degraus para completar a descida eu me desequilibro e caio. Eu não lembro da dor, não lembro o que vi em seguida. Só lembro de ter me assustado ao passar a mão na cabeça e ver todo aquele sangue. Sim, eu bati a nuca. Minha mãe correu até mim. Eu lembro de ter pedido para não ir ao hospital, mas minha avó, que ali também estava, cortou logo essa opção dizendo que o choque com quina do degrau abriu um pequeno corte na minha cabeça.
Lembro do meu tio que chegou rapidamente em casa, meu pai que deixou de ir à igreja para me levar ao hospital.
Eu lembro do cheiro de estofado de carro, só que não aquele cheiro que sentimos no carro dos nossos pais, e sim aquele cheiro de estofado do carro de outras pessoas.
Meu tio ficou do lado de fora do hospital até eu sair. Eu e meu pai estávamos na fila do raio-x, ao meu lado tinha um senhor que aparentava ter uns sessenta anos. Ele estava com uma tipoia azul. Na minha frente havia um homem louro com uma jaqueta preta e amarelo mostarda, a jaqueta estava suja de graxa e o cara parecia ser motoqueiro. Lembro de ter tentado ficar longe dele quando o suposto motoqueiro começou a gemer de dor.
"O que aconteceu com sua cabeça" perguntou o senhor ao meu lado examinando minha expressão de incomodo segurando um pedaço de pano na nuca.
"Eu bati na escada" respondi sem jeito, eu não me sentia a vontade para conversar com pessoas desconhecidas.
"Na escada? Está tudo bem?" perguntou o senhor, juro ter lutado para não responder: "É lógico que não, abriu um túnel na minha cabeça, aff, que pergunta idiota, meu senhor", mas ao contrário disso, respondi:
"Está tudo bem sim".
Passaram-se alguns minutos e meu pai estava resolvendo alguma coisa no balcão de atendimento.
O senhor puxou assunto novamente.
"Onde está sua mãe?"
"Em casa. Vim com meu pai e meu tio" respondi.
"Oh, como aconteceu o acidente?" perguntou o senhor.
"Eu resolvi descer na chuva e acabei escorregando, e aí bati a cabeça" expliquei.
"Crianças" disse ele a si mesmo.
"Eu devia ter ido á igreja, pelo menos, isso não tinha acontecido" disse eu me lamentando.
"Por que não foi a igreja?"
"Porque não quis"
"Não quis ir a igreja, mas quis descer pra casa da sua avó na chuva?"
"Exatamente" disse eu.
O senhor enrugou mais ainda sua face enrugada quando eu soltei essa última palavra, soou rude.
Por um instante tudo ficou quieto, a não ser pelo motoqueiro gemendo ao meu lado, pessoas tossindo, e meu pai assinando formulários batendo canetas no balcão ao trocar de azuis para vermelhas. O senhor ao meu lado coçou o braço e pareceu estar pensando em alguma coisa quando olhou fixamente para o piso branco com pontos pretos, que quimicamente explicando, é mármore.
Quebrando o silêncio, eu me virei para o senhor e disse:
"Se eu tivesse morrido será que falariam de mim na igreja?"
O senhor pensou. Abriu a boca. Pensou mais um instante. E finalmente respondeu.
"Olha garoto, você poderia até ter sido o melhor filho do mundo, mas eu garanto, que depois de falarem de você na igreja a única coisa que as pessoas iriam comentar e não esquecer era que você andou faltando, e que sua morte se devia a aquilo"
Lembro do meu tio que chegou rapidamente em casa, meu pai que deixou de ir à igreja para me levar ao hospital.
Eu lembro do cheiro de estofado de carro, só que não aquele cheiro que sentimos no carro dos nossos pais, e sim aquele cheiro de estofado do carro de outras pessoas.
Meu tio ficou do lado de fora do hospital até eu sair. Eu e meu pai estávamos na fila do raio-x, ao meu lado tinha um senhor que aparentava ter uns sessenta anos. Ele estava com uma tipoia azul. Na minha frente havia um homem louro com uma jaqueta preta e amarelo mostarda, a jaqueta estava suja de graxa e o cara parecia ser motoqueiro. Lembro de ter tentado ficar longe dele quando o suposto motoqueiro começou a gemer de dor.
"O que aconteceu com sua cabeça" perguntou o senhor ao meu lado examinando minha expressão de incomodo segurando um pedaço de pano na nuca.
"Eu bati na escada" respondi sem jeito, eu não me sentia a vontade para conversar com pessoas desconhecidas.
"Na escada? Está tudo bem?" perguntou o senhor, juro ter lutado para não responder: "É lógico que não, abriu um túnel na minha cabeça, aff, que pergunta idiota, meu senhor", mas ao contrário disso, respondi:
"Está tudo bem sim".
Passaram-se alguns minutos e meu pai estava resolvendo alguma coisa no balcão de atendimento.
O senhor puxou assunto novamente.
"Onde está sua mãe?"
"Em casa. Vim com meu pai e meu tio" respondi.
"Oh, como aconteceu o acidente?" perguntou o senhor.
"Eu resolvi descer na chuva e acabei escorregando, e aí bati a cabeça" expliquei.
"Crianças" disse ele a si mesmo.
"Eu devia ter ido á igreja, pelo menos, isso não tinha acontecido" disse eu me lamentando.
"Por que não foi a igreja?"
"Porque não quis"
"Não quis ir a igreja, mas quis descer pra casa da sua avó na chuva?"
"Exatamente" disse eu.
O senhor enrugou mais ainda sua face enrugada quando eu soltei essa última palavra, soou rude.
Por um instante tudo ficou quieto, a não ser pelo motoqueiro gemendo ao meu lado, pessoas tossindo, e meu pai assinando formulários batendo canetas no balcão ao trocar de azuis para vermelhas. O senhor ao meu lado coçou o braço e pareceu estar pensando em alguma coisa quando olhou fixamente para o piso branco com pontos pretos, que quimicamente explicando, é mármore.
Quebrando o silêncio, eu me virei para o senhor e disse:
"Se eu tivesse morrido será que falariam de mim na igreja?"
O senhor pensou. Abriu a boca. Pensou mais um instante. E finalmente respondeu.
"Olha garoto, você poderia até ter sido o melhor filho do mundo, mas eu garanto, que depois de falarem de você na igreja a única coisa que as pessoas iriam comentar e não esquecer era que você andou faltando, e que sua morte se devia a aquilo"
terça-feira, 6 de setembro de 2011
É difícil dizer isso.
Você anda tirando toda a minha atenção, e anda tomando toda a minha mente. Por ora, você anda tomando todas as minhas palavras, todas as minhas falas e todas as minhas horas. Você anda tirando meu sono e quando consigo dormir você está em meus sonhos.
Ando pensando em... em nada a não ser você. Ando idolatrando-te.
Sinceramente, eu não aguento, é um tipo de amor errado, toda vez que penso em você eu acho que devo estar pensando em outra coisa, porque pensei em você o dia inteiro. Eu gosto de você.
Como Oscar Wilde disse - Um homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que não a ame.
Cansado
Um dia que parece lindo você acorda com um dor aguda na perna. Uma dor de cabeça. Uma dor no pescoço. Você se vê com preguiça, olha pro calendário, tenta acreditar que hoje você não tem nada de importante na escola. Você afunda no edredom e diz a si mesmo que não tem nada de importante a fazer. Dorme mais duas horas e acorda com as mesmas dores. Caminha até a cozinha e prepara o café.
Outro dia, você acorda cansado. Mas dessa vez, cansado de tudo.
Cansado das pessoas, dos ônibus, do cheiro de fumaça, do barulho. Se cansa da rotina, do horário, do burburinho e do empurra-empurra no metro, das avenidas, das ruas, das pontes. Se cansa das dores, da fadiga, se cansa do transito, se cansa até da sua vizinha. Você começa a notar em cada coisa que você vê todos os dias, compara com ontem, anteontem e até na segunda-feira cansada de semana passada. Você se cansa de ver as mesmas pessoas nas ruas, os mesmos bares abertos, e de passar quase todos os dias em frente aquela loja a caminho do terminal de ônibus. Você se cansa do "amanhã será diferente". Você cansa de falsidade, você se cansa de amores platônicos, você se cansa do mundo. Você se cansa do "a vida é assim, cara". Você se cansa de si mesmo. Você se cansa de se cansar.
domingo, 4 de setembro de 2011
Zumbis e Danone
Quando eu era criança, tinha um livro que cheirava bem, era colorido e tinha capa dura. Na capa do livro tinham três zumbis, não lembro do titulo, era algo com as palavras “noite”, “terror” e “zumbis”. Eu havia ganhado o livro do meu avô quando eu fora visitá-lo em Campos Novos Paulista, interior de São Paulo. O livro era grande e eu era pequeno, então eu ficava foleando o livro capitulo por capitulo vendo apenas as imagens grandes e detalhadas que haviam em uma página ou outra.
Lembro de estar tomando danone e ter acabado de lamber aquela parte laminada que tapa o pote. Eu lembro também que estava calor, muito calor, o sol filtrava-se por entre as folhas das árvores. Lembro que eu estava sozinho também, minha mãe tinha ido trabalhar no período da manhã, meu pai já estava no trabalho e meus irmãos estavam na escola. Eu lembro de ter derramado danone de morango no meio de uma das páginas do livro e de ter corrido até á área de serviço e pegar uma flanela úmida para tentar limpar o estrago que fiz. Pois bem, não consegui.
Chamei minha avó na esperança dela responder, mas eu estava realmente sozinho em casa. Corri até a rua para ver se ela estava varrendo a calçada, mas não. Sentei na frente do portão e fiquei esperando alguém, com mais de dezoito e que fosse da minha família, chegar e me ajudar com o livro. Quando eu era criança, pra mim, qualquer adulto poderia resolver qualquer problema, pra mim, a fase adulta era meio que um modo especial de um jogo já detonado. Sabe aquelas fases especiais que você desbloqueia quando zera algum jogo? Pois bem, era assim que eu imaginava. Porque nas fases especiais de um jogo você tem novas armas, habilidades, magias e mods, pra mim, os adultos podiam fazer tudo porque o titulo de ser adulto meio que os obrigava a conseguir fazer tudo, pelo menos tudo que uma criança pede para ele fazer.
Esperei até às cinco da tarde na frente do portão de casa, quando avistei minha mãe aparecendo na esquina corri até ela loucamente.
“Que foi? Que foi, filho?” disse minha mãe ao me ver correndo.
“Derramei danone no meu livro novo” disse eu.
“Calma, precisa desse escândalo todo?” acalmou-me minha mãe.
Sei que aquele dia terminou com meu livro restaurado e eu fiquei mais duas horas matinais e antes de dormir revendo as páginas.
É claro que eu era ingênuo, devia ter uns sete ou oito anos e gostava de comprar cards. Hoje em dia, pra mim, não são os adultos que podem fazer tudo, não são os adultos a fase especial de um jogo já zerado, e sim, a ingenuidade, a fantasia e a mente das crianças.
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