quarta-feira, 21 de setembro de 2011


Vivo triste
Aqui e ali
Vivo dando risada
Ali e aqui
Escrevo sobre meus dias
Escrevo sobre melancolia
Escrevo sobre felicidade
Escrevo sobre escravos na minha cidade
Escrevo sobre sofrimento
Escrevo sobre esquecimento
Escrevo sobre ruivas
Escrevo sobre sexo
Para passar o tempo
Pego algum tonto
E desenvolvo um papo sem nexo
Vivo triste
Aqui e ali
Vivo dando risada
Ali e aqui
Para muitos sou triste
Para outros sofri
Para a minha mãe preciso sair
Para o meu pai preciso fluir
Para a minha avó isso é viver
Para mim isso é tudo teatro
Eu é que gosto de escrever

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ultimamente estou sem inspiração. Ultimamente estou sem Coca-Cola. Ultimamente estou sem sexo. Ultimamente estou sem abraços. Ultimamente estou sem dinheiro. Ultimamente estou sem energia. Ultimamente estou sem sulfites. Ultimamente estou sem canetas. Ultimamente estou sem sonhos. Ultimamente estou sem dores no joelho. Ultimamente estou sem livros novos. Ultimamente estou sem sorrisos. Ultimamente estou sem músicas novas. Ultimamente estou sem ver o sol nascer. Ultimamente estou sem acertar cestas no basquete. Ultimamente estou sem viajar. Ultimamente estou sem beijos. Ultimamente estou sem paciência. Ultimamente estou sem vontade de falar com você. Ultimamente estou sem ver bondade em alguém. Ultimamente estou sem quietação. Ultimamente estou sem ar. Ultimamente essas coisas estão me sufocando. Ultimamente estou querendo ficar longe dos amigos. Ultimamente vem sido mais interessante ser invisível. Ultimamente estou com sono. Ultimamente estou com preguiça. Ultimamente preciso me alegrar. Ultimamente estou fazendo despretensiosamente tudo ao contrario do que eu devia fazer. Ultimamente todos estão reparando em mim. Ultimamente estou precisando esquecer tudo isso.

sábado, 10 de setembro de 2011

Se eu passar a mão na minha nuca ainda posso sentir a cicatriz de aproximadamente três centímetros.  Eu lembro do dia em que ganhei essa cicatriz, estava chovendo, eu lembro de não querer ir à igreja naquele domingolembro da forma insistente que pedi para minha mãe fazer bolo, e do jeito rude que meu pai avisou para eu não descer até a casa da minha avó. Eu desobedeci. Numa virada de costas do meu pai eu saquei o guarda-chuva que ali estava pendurado e desci na chuva. Faltando quatro degraus para completar a descida eu me desequilibro e caio. Eu não lembro da dor, não lembro o que vi em seguida. Só lembro de ter me assustado ao passar a mão na cabeça e ver todo aquele sangue. Sim, eu bati a nuca. Minha mãe correu até mim. Eu lembro de ter pedido para não ir ao hospital, mas minha avó, que ali também estava, cortou logo essa opção dizendo que o choque com quina do degrau abriu um pequeno corte na minha cabeça.
Lembro do meu tio que chegou rapidamente em casa, meu pai que deixou de ir à igreja para me levar ao hospital.
Eu lembro do cheiro de estofado de carro, só que não aquele cheiro que sentimos no carro dos nossos pais, e sim aquele cheiro de estofado do carro de outras pessoas.
Meu tio ficou do lado de fora do hospital até eu sair. Eu e meu pai estávamos na fila do raio-x, ao meu lado tinha um senhor que aparentava ter uns sessenta anos. Ele estava com uma tipoia azul. Na minha frente havia um homem louro com uma jaqueta preta e amarelo mostarda, a jaqueta estava suja de graxa e o cara parecia ser motoqueiro. Lembro de ter tentado ficar longe dele quando o suposto motoqueiro começou a gemer de dor.
"O que aconteceu com sua cabeça" perguntou o senhor ao meu lado examinando minha expressão de incomodo segurando um pedaço de pano na nuca. 
"Eu bati na escada" respondi sem jeito, eu não me sentia a vontade para conversar com pessoas desconhecidas.
"Na escada? Está tudo bem?" perguntou o senhor, juro ter lutado para não responder: "É lógico que não, abriu um túnel na minha cabeça, aff, que pergunta idiota, meu senhor", mas ao contrário disso, respondi:
"Está tudo bem sim".
Passaram-se alguns minutos e meu pai estava resolvendo alguma coisa no balcão de atendimento.
O senhor puxou assunto novamente.
"Onde está sua mãe?"
"Em casa. Vim com meu pai e meu tio" respondi.
"Oh, como aconteceu o acidente?" perguntou o senhor.
"Eu resolvi descer na chuva e acabei escorregando, e aí bati a cabeça" expliquei.
"Crianças" disse ele a si mesmo.
"Eu devia ter ido á igreja, pelo menos, isso não tinha acontecido" disse eu me lamentando.
"Por que não foi a igreja?"
"Porque não quis"
"Não quis ir a igreja, mas quis descer pra casa da sua avó na chuva?"
"Exatamente" disse eu.
O senhor enrugou mais ainda sua face enrugada quando eu soltei essa última palavra, soou rude.
Por um instante tudo ficou quieto, a não ser pelo motoqueiro gemendo ao meu lado, pessoas tossindo, e meu pai assinando formulários batendo canetas no balcão ao trocar de azuis para vermelhas. O senhor ao meu lado coçou o braço e pareceu estar pensando em alguma coisa quando olhou fixamente para o piso branco com pontos pretos, que quimicamente explicando, é mármore.
Quebrando o silêncio, eu me virei para o senhor e disse:
"Se eu tivesse morrido será que falariam de mim na igreja?"
O senhor pensou. Abriu a boca. Pensou mais um instante. E finalmente respondeu.
"Olha garoto, você poderia até ter sido o melhor filho do mundo, mas eu garanto, que depois de falarem de você na igreja a única coisa que as pessoas iriam comentar e não esquecer era que você andou faltando, e que sua morte se devia a aquilo"

terça-feira, 6 de setembro de 2011

É difícil dizer isso.
Você anda tirando toda a minha atenção, e anda tomando toda a minha mente. Por ora, você anda tomando todas as minhas palavras, todas as minhas falas e todas as minhas horas. Você anda tirando meu sono e quando consigo dormir você está em meus sonhos. 
Ando pensando em... em nada a não ser você. Ando idolatrando-te.
Sinceramente, eu não aguento, é um tipo de amor errado, toda vez que penso em você eu acho que devo estar pensando em outra coisa, porque pensei em você o dia inteiro. Eu gosto de você.
Como Oscar Wilde disse - Um homem pode ser feliz com qualquer mulher, desde que não a ame.

Cansado

Um dia que parece lindo você acorda com um dor aguda na perna. Uma dor de cabeça. Uma dor no pescoço. Você se vê com preguiça, olha pro calendário, tenta acreditar que hoje você não tem nada de importante na escola. Você afunda no edredom e diz a si mesmo que não tem nada de importante a fazer. Dorme mais duas horas e acorda com as mesmas dores. Caminha até a cozinha e prepara o café.
Outro dia, você acorda cansado. Mas dessa vez, cansado de tudo.
Cansado das pessoas, dos ônibus, do cheiro de fumaça, do barulho. Se cansa da rotina, do horário, do burburinho e do empurra-empurra no metro, das avenidas, das ruas, das pontes. Se cansa das dores, da fadiga, se cansa do transito, se cansa até da sua vizinha. Você começa a notar em cada coisa que você vê todos os dias, compara com ontem, anteontem e até na segunda-feira cansada de semana passada. Você se cansa de ver as mesmas pessoas nas ruas, os mesmos bares abertos, e de passar quase todos os dias em frente aquela loja a caminho do terminal de ônibus. Você se cansa do "amanhã será diferente". Você cansa de falsidade, você se cansa de amores platônicos, você se cansa do mundo. Você se cansa do "a vida é assim, cara". Você se cansa de si mesmo. Você se cansa de se cansar.

domingo, 4 de setembro de 2011

Zumbis e Danone


Quando eu era criança, tinha um livro que cheirava bem, era colorido e tinha capa dura. Na capa do livro tinham três zumbis, não lembro do titulo, era algo com as palavras “noite”, “terror” e “zumbis”. Eu havia ganhado o livro do meu avô quando eu fora visitá-lo em Campos Novos Paulista, interior de São Paulo. O livro era grande e eu era pequeno, então eu ficava foleando o livro capitulo por capitulo vendo apenas as imagens grandes e detalhadas que haviam em uma página ou outra.
Lembro de estar tomando danone e ter acabado de lamber aquela parte laminada que tapa o pote. Eu lembro também que estava calor, muito calor, o sol filtrava-se por entre as folhas das árvores. Lembro que eu estava sozinho também, minha mãe tinha ido trabalhar no período da manhã, meu pai já estava no trabalho e meus irmãos estavam na escola. Eu lembro de ter derramado danone de morango no meio de uma das páginas do livro e de ter corrido até á área de serviço e pegar uma flanela úmida para tentar limpar o estrago que fiz. Pois bem, não consegui.
Chamei minha avó na esperança dela responder, mas eu estava realmente sozinho em casa. Corri até a rua para ver se ela estava varrendo a calçada, mas não. Sentei na frente do portão e fiquei esperando alguém, com mais de dezoito e que fosse da minha família, chegar e me ajudar com o livro. Quando eu era criança, pra mim, qualquer adulto poderia resolver qualquer problema, pra mim, a fase adulta era meio que um modo especial de um jogo já detonado. Sabe aquelas fases especiais que você desbloqueia quando zera algum jogo? Pois bem, era assim que eu imaginava. Porque nas fases especiais de um jogo você tem novas armas, habilidades, magias e mods, pra mim, os adultos podiam fazer tudo porque o titulo de ser adulto meio que os obrigava a conseguir fazer tudo, pelo menos tudo que uma criança pede para ele fazer.
Esperei até às cinco da tarde na frente do portão de casa, quando avistei minha mãe aparecendo na esquina corri até ela loucamente.
“Que foi? Que foi, filho?” disse minha mãe ao me ver correndo.
“Derramei danone no meu livro novo” disse eu.
“Calma, precisa desse escândalo todo?” acalmou-me minha mãe.
Sei que aquele dia terminou com meu livro restaurado e eu fiquei mais duas horas matinais e antes de dormir revendo as páginas.
É claro que eu era ingênuo, devia ter uns sete ou oito anos e gostava de comprar cards. Hoje em dia, pra mim, não são os adultos que podem fazer tudo, não são os adultos a fase especial de um jogo já zerado, e sim, a ingenuidade, a fantasia e a mente das crianças.