Quando eu era criança, tinha um livro que cheirava bem, era colorido e tinha capa dura. Na capa do livro tinham três zumbis, não lembro do titulo, era algo com as palavras “noite”, “terror” e “zumbis”. Eu havia ganhado o livro do meu avô quando eu fora visitá-lo em Campos Novos Paulista, interior de São Paulo. O livro era grande e eu era pequeno, então eu ficava foleando o livro capitulo por capitulo vendo apenas as imagens grandes e detalhadas que haviam em uma página ou outra.
Lembro de estar tomando danone e ter acabado de lamber aquela parte laminada que tapa o pote. Eu lembro também que estava calor, muito calor, o sol filtrava-se por entre as folhas das árvores. Lembro que eu estava sozinho também, minha mãe tinha ido trabalhar no período da manhã, meu pai já estava no trabalho e meus irmãos estavam na escola. Eu lembro de ter derramado danone de morango no meio de uma das páginas do livro e de ter corrido até á área de serviço e pegar uma flanela úmida para tentar limpar o estrago que fiz. Pois bem, não consegui.
Chamei minha avó na esperança dela responder, mas eu estava realmente sozinho em casa. Corri até a rua para ver se ela estava varrendo a calçada, mas não. Sentei na frente do portão e fiquei esperando alguém, com mais de dezoito e que fosse da minha família, chegar e me ajudar com o livro. Quando eu era criança, pra mim, qualquer adulto poderia resolver qualquer problema, pra mim, a fase adulta era meio que um modo especial de um jogo já detonado. Sabe aquelas fases especiais que você desbloqueia quando zera algum jogo? Pois bem, era assim que eu imaginava. Porque nas fases especiais de um jogo você tem novas armas, habilidades, magias e mods, pra mim, os adultos podiam fazer tudo porque o titulo de ser adulto meio que os obrigava a conseguir fazer tudo, pelo menos tudo que uma criança pede para ele fazer.
Esperei até às cinco da tarde na frente do portão de casa, quando avistei minha mãe aparecendo na esquina corri até ela loucamente.
“Que foi? Que foi, filho?” disse minha mãe ao me ver correndo.
“Derramei danone no meu livro novo” disse eu.
“Calma, precisa desse escândalo todo?” acalmou-me minha mãe.
Sei que aquele dia terminou com meu livro restaurado e eu fiquei mais duas horas matinais e antes de dormir revendo as páginas.
É claro que eu era ingênuo, devia ter uns sete ou oito anos e gostava de comprar cards. Hoje em dia, pra mim, não são os adultos que podem fazer tudo, não são os adultos a fase especial de um jogo já zerado, e sim, a ingenuidade, a fantasia e a mente das crianças.