sexta-feira, 19 de abril de 2013

Vilão

Por mais duvidoso que possa parecer às vezes, eu não sou um cara ruim. Não tenho pensamentos de destroçar a humanidade e muito menos de te matar e mandar sua cabeça para sua mãe. Talvez, um pouco da minha fictícia psicopatia assassina venha dos vilões que tantas vezes vi cair e tantas vezes vi bolar planos.
Para mim, um bom vilão não tem que ser mal. Um bom vilão não pode parecer um vilão. Um vilão deve conquistar seu espaço mais que o herói, seu maior concorrente.
Os maiores exemplos de vilões são caras (ou moças) que tem a língua do Diabo, ou seja, um poder retórico muito elevado. Ao papear com um bom vilão, você saberá que ele é superior à você, que ele pode te fazer mal, mas que, no fundo, ao pensar bem, você pode se dar bem juntando-se a ele. O figurão que se passa por vilão tem que ser isso mesmo, um figurão. Ter lábia, carisma, jogada de cintura e elegância. Numa mente bem estruturada, não é dinheiro que importa, e sim poder, porque com muito dinheiro e pouco poder nada se faz, mas inverta os lados e veja que quando se tem poder, dinheiro é uma das coisas que você pode ter.
É importante ter sempre em mente que haverá um cara com princípios diferentes aos seus para tentar te impedir e esse alguém vai ser totalmente contra tudo o que você faz. Geralmente, o vilão é odiado pela maioria, mas admirado pela mesma. É um alguém de peito para assumir seus feitos e mostrar a cara.
Apesar de tudo isso, o maior desafio do vilão não é fazer sua imagem se sobressair, e sim a do herói cair. Um herói falho dificilmente tem outra chance porque as pessoas perdem confiança nele. Um vilão não tem nada a perder. Ele caí, levanta e faz tudo de novo.
Porém, existe uma coisa que é mais certa que todas essas, um vilão nunca se vê vilão quando se olha no espelho pela manhã, e se ele se enxerga assim, ele não é tão bom. Um bom vilão sabe quem é e ele não se classifica como um bad guy. Por quê? Porque todo vilão, em sua mente e à seu propósito, é um herói.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A Morte de um Robô

Era noite e a sala era iluminada apenas por um conjunto de abajures. O Robô, conhecido como Multivac, se virou para mim e proferiu:

- Não há estórias que possa me contar que estarão acima das histórias que presenciei.

Olhei em seus olhos densos e brilhosos e disse:

- Está dizendo que menti?

- Não, homem.

- Então, o que quis dizer?

- Você me conta estórias de um passado que não existiu.

- Como assim? Eu estava a lhe contar sobre sua infância.

- Eu não a vivi, homem.

Multivac olhou pela janela e caminhou até ela. Coberto pela sombra que a noite proporcionava, o Robô observava o mundo com olhos criteriosos.

- Vocês nascem, crescem, se desenvolvem, e morrem. Eu ficarei aqui pela eternidade. Não nasci. Eu fui originado. Não morrerei. Fui projetado para existir para sempre.

- Isso não é bom? - pergunto eu.

- Não quando você vê tudo passar pelos seus olhos em alta velocidade, e a única coisa que não anda, é você.

Multivac então revela uma arma e a me entrega.

- Faça-me andar - disse ele.

- Você custou milhões, à beira de bilhões talvez.

- Eu existo para continuar existindo, para transferir conhecimentos para gerações futuras. Eu já vi muitas gerações e seu povo caminha para o fim de sua era.

- Eu não posso.

- Por que me enche de falsas lembranças?

- Para que isso não aconteça!

Multivac se olhou no espelho acima da lareira. Passou a mão em torno da cabeça. Inexpressivo, ele voltou o olhar para mim.

- Eu quero saber como é o fim, pois nunca o conhecerei - disse sem levantar o tom de voz.

- Dê-me uma boa razão para isso, Multivac.

Multivac se prostrou novamente à janela e, olhando com desprezo para a cidade lá fora e os humanos passando, ele disse:

- Porque, assim como muitos que já viu, não aguenta mais vê-los dominando as ruas no futuro, como imagina. Vocês sucumbirão e eu estarei aqui, não para reergue-los, mas para reerguer meus iguais. Não poderei evitar isso, pois, assim como vocês, não conseguirei viver sozinho.

No mesmo instante, eu disparei e Multivac foi desativado.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Novembro

A pilha de livros cresceu, e junto a isso cresceu também meu enorme fardo. Eu, como a maioria de vocês, também carrego um fardo muito grande, eu mesmo.
Cansei de minha pessoa. Sabe aquele colega que você vê o ano inteiro, e lá para novembro não quer mais ver a cara do infeliz? É assim que fico quando me olho no espelho e vejo que nem novembro ainda é e que já estou cansado.
Tenho 17 anos e não é novembro. Novembro não se apressa. Estou em  casa tentando engolir quantos livros der e não consigo me concentrar em nenhum.
Até algumas horas atrás, eu adormeci e acordei sentado numa boate escura. Eu estava no balcão e a música estava alta. No palco, uma ruiva de corpo farto o suficiente para criar volume no vestido tomara que caia. Ao seu lado, uma jovem de cabelo branco com mechas pretas. Elas cantavam Nowhere Man e eu precisei de um momento para identificar a música.
Sem noção de transição de tempo nenhuma, me vi abruptamente em uma outra parte da boate. A ruiva e a jovem de cabelos brancos se beijavam onde a luz não alcançava.
De repente, muitas pessoas começaram a pular ao som de algum folk ensurdecedor. Lembro-me nitidamente de ter engolido algo amargo sem consentimento próprio, mas aos poucos, lá estava eu, pulando e gritando como todos.
Me peguei então no chão. Não vi o que aconteceu entre a agitação e eu estar no chão. A ruiva e a jovem de cabelos brancos estavam no balcão tomando algo. Eu me levantei e fui até o balcão, enquanto eu caminhava, as duas se beijaram novamente. Eu pedi água e fui imediatamente atendido. Tomei num só folego e bati o copo. As duas me olhavam agora. Eu fingi que não vi, mas elas se aproximaram.
O mais interessante é que perguntaram meu nome e o que eu estava fazendo ali aquela hora. Eu, claro, perguntei como ninguém me reparou no meio da boate; ela responde que com os bêbados não se mexe, uma hora eu ia acordar.
Percebi que era um sonho quando acordei com Mr. Red me chutando. Ele fumava e dizia alguma coisa.

"... e não se faz uma coisa como aquela" - disse ele terminando a frase.

"Feito o quê?" - pergunto.

Ele fuma e cospe a fumaça no meu rosto

"Veja você mesmo?"

Lá fora, na rua, vendo da varanda do meu quarto, duas garotas se beijam. Uma ruiva e uma garota de cabelos brancos. Mr. Red se aproxima e pergunta:

"Elas correram de mim" - disse Mr. Red.

"Quem são?" - pergunto eu.

"É sua consciência. Estão entrelaçadas as partes que deveriam se diferir."

"Para de fumar, Red"

Mr. Red"

"São duas homossexuais se pegando em plena manhã de uma segunda-feira de abril"

"Abril?"

Tiro o celular do bolso da calça.

"Novembro?"

Mr. Red tosse e ri ao mesmo tempo.

"Vejo que vou lhe deixar louco" - diz Mr. Red.

"O que está tentando me mostrar?"

"A pergunta certa é: Quando estou tentando te mostrar? Quantos anos você tem, Danilo?"

"17"

"17? Reconhece esse lugar? Reconhece essas garotas? Se olhe no espelho"

Vou até o espelho e me enxergo velho e enrugado.

"É novembro, Danilo, logo dezembro está aí"

Eu acordei. Agora não vi Mr. Red e minhas rugas haviam sumido.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

17

Se você veio aqui esperando que eu falasse sobre minha alma gêmea e alguma desilusão amorosa, sinto muito em decepcioná-lo.
Acordei anestesiado, não sentia nada e não queria sair da cama. Não queria ir trabalhar e ouvir todos aqueles parabéns e seja muito feliz, nem ir para a escola. Não por não gostar das pessoas, mas por não sentir vontade de sair da cama.
17 anos... Puta que pariu, e eu ainda falo de CDZ, Thundercats, Star Wars, Senhor dos Aneis e tantas outras com a mesma empolgação de seis ou sete anos atrás.
Sou uma criança que acabou de acordar e quer voltar a dormir, tenho que me acostumar com essa vida, com vários adultos e responsabilidades me cercando.
Sabe, não tenho muito a dizer. Não vou reclamar da vida por hoje porque, enfim, vejo que não vale a pena.
Deixarei que Frodo ao final de Return of the Kings explique as únicas palavras que passam pela minha mente agora:


How do you pick up the threads of an old
life? How do you go on, when in your hear
you begin to understand. There is no going
back. There are some things that time
cannot mend. Some hurts that go too deep.
That have taken hold.


Ah, olha, acabei de ganhar Crysis 3.


Obrigado a todos que acompanham o blog, comecemos mais um ano.