Se eu passar a mão na minha nuca ainda posso sentir a cicatriz de aproximadamente três centímetros. Eu lembro do dia em que ganhei essa cicatriz, estava chovendo, eu lembro de não querer ir à igreja naquele domingo, lembro da forma insistente que pedi para minha mãe fazer bolo, e do jeito rude que meu pai avisou para eu não descer até a casa da minha avó. Eu desobedeci. Numa virada de costas do meu pai eu saquei o guarda-chuva que ali estava pendurado e desci na chuva. Faltando quatro degraus para completar a descida eu me desequilibro e caio. Eu não lembro da dor, não lembro o que vi em seguida. Só lembro de ter me assustado ao passar a mão na cabeça e ver todo aquele sangue. Sim, eu bati a nuca. Minha mãe correu até mim. Eu lembro de ter pedido para não ir ao hospital, mas minha avó, que ali também estava, cortou logo essa opção dizendo que o choque com quina do degrau abriu um pequeno corte na minha cabeça.
Lembro do meu tio que chegou rapidamente em casa, meu pai que deixou de ir à igreja para me levar ao hospital.
Eu lembro do cheiro de estofado de carro, só que não aquele cheiro que sentimos no carro dos nossos pais, e sim aquele cheiro de estofado do carro de outras pessoas.
Meu tio ficou do lado de fora do hospital até eu sair. Eu e meu pai estávamos na fila do raio-x, ao meu lado tinha um senhor que aparentava ter uns sessenta anos. Ele estava com uma tipoia azul. Na minha frente havia um homem louro com uma jaqueta preta e amarelo mostarda, a jaqueta estava suja de graxa e o cara parecia ser motoqueiro. Lembro de ter tentado ficar longe dele quando o suposto motoqueiro começou a gemer de dor.
"O que aconteceu com sua cabeça" perguntou o senhor ao meu lado examinando minha expressão de incomodo segurando um pedaço de pano na nuca.
"Eu bati na escada" respondi sem jeito, eu não me sentia a vontade para conversar com pessoas desconhecidas.
"Na escada? Está tudo bem?" perguntou o senhor, juro ter lutado para não responder: "É lógico que não, abriu um túnel na minha cabeça, aff, que pergunta idiota, meu senhor", mas ao contrário disso, respondi:
"Está tudo bem sim".
Passaram-se alguns minutos e meu pai estava resolvendo alguma coisa no balcão de atendimento.
O senhor puxou assunto novamente.
"Onde está sua mãe?"
"Em casa. Vim com meu pai e meu tio" respondi.
"Oh, como aconteceu o acidente?" perguntou o senhor.
"Eu resolvi descer na chuva e acabei escorregando, e aí bati a cabeça" expliquei.
"Crianças" disse ele a si mesmo.
"Eu devia ter ido á igreja, pelo menos, isso não tinha acontecido" disse eu me lamentando.
"Por que não foi a igreja?"
"Porque não quis"
"Não quis ir a igreja, mas quis descer pra casa da sua avó na chuva?"
"Exatamente" disse eu.
O senhor enrugou mais ainda sua face enrugada quando eu soltei essa última palavra, soou rude.
Por um instante tudo ficou quieto, a não ser pelo motoqueiro gemendo ao meu lado, pessoas tossindo, e meu pai assinando formulários batendo canetas no balcão ao trocar de azuis para vermelhas. O senhor ao meu lado coçou o braço e pareceu estar pensando em alguma coisa quando olhou fixamente para o piso branco com pontos pretos, que quimicamente explicando, é mármore.
Quebrando o silêncio, eu me virei para o senhor e disse:
"Se eu tivesse morrido será que falariam de mim na igreja?"
O senhor pensou. Abriu a boca. Pensou mais um instante. E finalmente respondeu.
"Olha garoto, você poderia até ter sido o melhor filho do mundo, mas eu garanto, que depois de falarem de você na igreja a única coisa que as pessoas iriam comentar e não esquecer era que você andou faltando, e que sua morte se devia a aquilo"
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