"dia difícil?" perguntou ele se acomodando no banco de longas pernas.
"vida difícil, companheiro" respondi.
Ele riu ridiculamente.
Era uma boate estranha, as paredes tinham um papel de parede vermelho com pequenas flores douradas e o chão era coberto com um carpete cor de vinho. As luzes eram vermelhadas, e a única cor mais clara era o branco dos guardanapos debaixo dos copos quase vazios de whisky.
"Aceita mais uma bebida?" perguntou ele.
"whatever" respondi.
Foi me entregue um coquetel ridículo, havia um perqueno guarda-chuva junto ao limão, parecia, mas não era, caipinha; estava mais para algo mais forte. Tomei de uma vez.
"Oh-oh, vai com calma!" disse o homem.
"E quem disse que eu deveria?" respondi.
"Tem uma mulher te encarando na mesa quatro, olhe discretamente" disse o homem.
Eu olhei. Ela era ruiva, tinha olhos castanhos esverdeados e sua pele era branca com um belo par de bochechas rosadas.
"Vai lá" disse o homem.
"Hã? Vai lá onde?"
"Vai ir falar com ela" disse ele.
"Eu preciso ir para casa" aleguei.
Eu me levantei, e deixei vinte reais sob o balcão, cambaleando tentei ir até a saída. Sim, tentei. Após ter levantado ouvi um enorme estrondo, e tudo começou a tremer, como um violento terremoto. Tudo começou a cair das prateleiras, a cair no chão, mas, tinha algo errado; parecia ser só eu a estar ligando para o terromoto, todos continuavam a comer, dançar, jogar, como se nada estivesse acontecendo.
"O que está acontecendo?!" perguntei ao homem.
"Shh, não se altere" disse ele.
"Esse lugar vai vir desmoronar"
"não vai" disse o homem tranquilamente tomando sua bebida enquanto poeira sujava seu cabelo curto e negro.
"Onde estamos?" perguntei.
"Onde parece?" retrucou ele.
"O Japão" chutei.
"Por que o Japão?" perguntou o homem.
"Tem tantos terremotos por lá que eles nem devem mais correr quando um começa" disse eu.
O homem riu.
"Não é o Japão" disse ele.
O homem se levantou e jogou o copo no chão. O copo espatifou-se em milhões de pedaços. Eu não estava entendendo nada, eu olhava para todos a minha volta esperando uma resposta.
"Olhe isso" pediu o homem.
O homem direcionou sua mão aos cacos do copo de vidro no chão e sua mão começou a tremer. Os cacos do copo de vidro começaram a se mexer, uns começaram a flutuar a poucos centímetros do chão, até que, os cacos de vidro começaram a se juntar, a se reintegrarem, a formar novamente um copo. O cacos se juntaram e finalmente formaram o copo novamente, e num movimento de mão, o homem fez o copo rapidamente se atrair a mão dele.
"Ok. Isso é estranho" disse eu.
O homem riu e estralou os dedos.
Fomos teletransportados para um lugar escuro, eu não enxergava nada além da escuridão e do rosto e corpo do homem; era como se ele fosse a única coisa iluminada naquele lugar, um holofote parecia estar sob ele.
"Onde estamos?" perguntei.
"Adivinhe" disse o homem.
"Primeiramente, quem é você?" disse eu me perguntando como não tinha feito aquela pergunta antes.
O homem riu.
"Ah, qual é? Sério mesmo?" disse o homem.
"Eu pareço estar brincando" disse eu apontando para meu rosto.
"Não, é sério mesmo? Não me reconhece; cabelos negros e curtos, olhos castanhos, grande, musculoso, e não usa gravata" descreveu-se o homem.
"Eu não te conheço" disse eu.
"Ahh, poxa, não está tão na cara assim? Caramba" disse o homem se frustrando.
O homem começou a desabotoar a camisa.
"O que está fazendo?"
O homem continuou a desabotoar a camisa e a tirou.
"Olhe para as minhas costas e diga que não me conhece" disse o homem.
Havia uma cicatriz gigante em forma de pentagrama nas costas do homem, e sim, eu o conhecia.
"Não pode ser" disse eu desacreditado.
O homem revestiu a camisa.
"Você é o Ryan Houser, um dos meus personagens" disse eu.
"Bingo!"
"Como?" perguntei.
"Eu estou dentro de você, lembra?" disse ele.
"Então nós estamos..."
"Dentro da sua mente" disse ele.
Olhei em volta, e não gostei do que vi, esperava mais.
"Minha mente é um grande nada sendo que eu tenho milhões de coisas misturadas dentro dela?" disse eu.
"O que você esperava que fosse? A Disney?"
"Ou uma casa na praia com a Mila Kunis, Lindsay Lohan, e mais algumas prontas para fazerem sexo o dia inteiro" disse eu sorrindo.
"Que tolice" disse ele.
Baixei a cabeça.
"Siga-me" disse Ryan.
O segui. Quando percebi estávamos numa sala grande e aconchegante.
"Espera, eu conheço esses quadros e esse sofá" disse eu.
"Com certeza" disse Ryan.
"Foi aqui que..." algo me interrompeu.
Um menino louco começou a correr pela sala, e depois foi para a cozinha, eu e Ryan o seguimos. O menino estava agora na varanda e estava chovendo.
"Oh, meu Deus!" disse eu.
O menino estava sendo repreendido por um homem barrigudo mas nem tanto, e estava querendo descer as escadas, mas o pai não deixava pois estava chovendo.
"Meu Deus, Ryan. Esse menino sou eu, e esse homem é meu pai" disse eu.
"Percebi pela agitação" disse Ryan.
"Oh, meu Deus. Esse foi o dia em que eu quase morri por ter escorregado e batido a cabeça na quina do degrau" disse eu alarmado.
O homem voltou para dentro de casa, e o menino ficou olhando para escada a baixo.
"Eles não podem nos ver?" perguntei.
"Logicamente, não" disse Ryan.
O menino rapidamente sacou o guarda-chuva e desceu a escada correndo.
"NÃO VOCÊ VAI..."
O menino escorregou e "ploc" fez o barulho da cabeça batendo no degrau. O menino soltou um grito agudo seguido de um choro beberrão.
"... cair" terminei a frase.
Vi o menino correr para os braços da mãe com a mão cheia de sangue, e olhei o degrau ali, machado de sangue e a água escorrendo entre o liquido vermelho.
"Precisamos continuar" disse Ryan que puxou-me pelo braço.
Num piscar de olhos estávamos numa sala de aula.
"Essa é minha sala de aula na quinta série? Oh meu Deus!" disse eu.
"Sim. Foi aqui que você escreveu no inicio do primeiro bimestre 'Guerra do Universo' lembra?" perguntou Ryan.
"Não sei onde foi parar esse conto" disse eu.
"Olha para você, não para de olhar para ela" disse Ryan.
"Olha para quem?" disse eu.
"Olhe para você ali na segunda cadeira depois da porta, com ela a seu lado, você pequeno e com aquele cabelo grande. Você sabe quem é aquela menina Danilo, depois dela todas as suas personagens românticas e filhas de personagens tiveram o nome dela" disse Ryan.
"Amanda... Amanda Silveira" disse eu.
"Foi uma paixonite né?" perguntou Ryan.
"Foi a paixonite mais séria que eu já tive" disse eu.
Vamos continuar a andar. N'outro piscar de olhos nós já estávamos em outro lugar. Olhei em volta.
"Esse foi o dia em que eu ganhei meu primeiro vídeo-game?" perguntei.
"Exatamente" disse Ryan.
Olhei para o relógio da cozinha, marcava onze e cinquenta e três da noite.
"Fazia tempo que eu não via esse relógio, meu irmão vai quebrar ele daqui dois dias. Meu pai deve chegar daqui a pouco" disse eu.
Meu pai começou a subir as escadas só com a mochila dele nas mãos.
"Nessa hora eu pensei que ele não tinha comprado o vídeo-game, mas estava dentro da mochila dele" disse eu sorrindo.
"Você ficou bem feliz" reparou Ryan.
"Temos que continuar a andar" disse Ryan.
Mais um piscar de olhos e estávamos num apartamento grande e luxuoso.
"Eu não conheço esse lugar" disse eu.
Ryan riu.
Havia uma linda menina ruiva brincando no tapete da sala fazendo um castelo de livros e colocando algumas bonecas no topo. Depois apareceu uma mulher linda, também ruiva, que chamou a pequena garota de filha, e depois apareceu descendo as escadas do apartamento um rapaz alto, todo vestido com roupas sociais, e uma pasta na mão. Parecia pai, mãe e filha os três, e eram.
"Eu não conheço nenhum desses três, Ryan. Principalmente esse almofadinha metido a grã-fino, e outra, ele usa gravatas e eu odeio gravatas, aff, nunca usarei gravatas. Ele é casado com essa mulher também? Aff, esse cara não tem cara de homem casado. Que babaca" disse eu.
Ryan riu novamente.
"Quem são eles? E quem é esse homem?" perguntei.
"Você"
"Eu o quê?" perguntei.
"Ele é você, no futuro" disse Ryan.
Eu ri.
"O Ryan Houser não podia prever o futuro" disse eu.
"Não seja por isso" disse Ryan.
Ryan estralou os dedos e uma fumaça branca o encobriu. Quando a fumaça foi dispersa, um novo homem apareceu, outro de meus personagens.
"E eu? Eu vejo o futuro?" perguntou o homem.
O homem que Ryan Houser se transformara era um outro personagem meu, seu nome era Jacob.
"Inteligente você se transformar no Jacob só porque ele é um personagem meu que pode prever o futuro" disse eu.
"É meio egocêntrico você dizer que eu sou inteligente já que eu sou você por viver dentro da sua mente" disse Jacob.
"Como eu me tornei ou me tornarei, sei lá, como eu fiquei desse jeito?" perguntei.
"Você seguiu o que seu pai disse, fez os cursos que seu tio indicou, e a faculdade de programação de computadores lhe rendeu um ótimo emprego" disse Jacob.
"Que lugar é esse? Digo, onde exatamente estamos?" perguntei.
"Vá até a janela e veja com seus próprios olhos" disse Jacob.
Caminhei até a janela passando entre o casal e a filha brincando e sorrindo na sala. Abri a cortina e olhei para fora da janela.
"OH MEU DEUS! Aquele é o Empire State?!" perguntei.
"O próprio" respondeu Jacob.
"Eu irei morar em Nova York, como sempre quis, esse é meu sonho" disse eu.
"Será mesmo?" perguntou Jacob.
"E por que não seria?"
"Olhe a sua volta, você vê alguma... câmera?" perguntou Jacob.
Olhei a minha volta e sim, não havia nenhuma câmera. Desde sempre meu sonho mais tenaz era de ser cineasta e eu jurei a mim que antes de ter filhos eu teria muitas câmeras em casa e já estaria formado na faculdade de cinema.
"Agora eu sei o porquê de eu não querer fazer a faculdade que meu pai disse que era para mim fazer" disse eu cabisbaixo.
"Seu pai né? Sempre seu pai" disse Jacob.
Jacob bateu palmas, e uma fumaça envolveu-se no corpo dele, quando a fumaça sumiu Jacob tinha se transformado na figura do meu pai.
"Pai?" não acreditei.
"Sim. Aqui estou" disse meu pai.
"Mas você não é nenhum dos meus personagens" disse eu.
"Ora Danilo, convenhamos que eu estou em quase todos os seus livros, eu sempre sou um pouco um dos vilões, ou até mesmo alguma barreira, ou o pai de algum adolescente rebelde, como você escreveu em 'Sexo, Drogas, e Rock n' Roll'" disse meu pai.
Pensei. Era verdade. Meu pai estava em quase todos os meus livros, pude ver naquele momento que meu pai estava mais envolvido comigo do que eu imaginava.
"Por que você está aqui?" perguntei.
"Para fazer você tomar a escolha certa" disse ele.
"O senhor sabe que eu tomarei" disse eu como sempre.
"Não. Você precisa de mim. Eu sei muito bem como é o mundo lá fora, você não vai conseguir simplesmente segurar uma câmera e ganhar dinheiro no exato momento" disse ele.
"Esse é seu problema. Por que tudo tem que ter uma recompensa financeira? Por que não pode ser para meu bem-estar?" perguntei.
"Porque eu fiz isso, e se eu tivesse sacrificado algumas bobeiras que eu fiz quando eu tinha sua idade hoje teríamos uma condição financeira muito melhor" disse meu pai.
"Eu quero fazer cinema" disse eu.
"Esse é seu sonho?" perguntou meu pai.
"Sim" disse eu.
"Você sabe que não é só isso? Por que você continua achando que o mundo não será tão difícil de ser levado se você olhar ele com outros olhos? É como aquela velha crença, se você acreditar na macumba, ela ficará tanto na sua cabeça que você ficará psicótico, e sem perceber você mesmo irá se condenar" disse meu pai.
"Como assim esse não é meu único sonho?" perguntei.
Meu pai bateu palmas duas vezes e a fumaça retornou, cobriu o corpo dele, e dessa o transformou em uma pessoa da qual eu não esperava jamais ver na minha frente... Eu mesmo.
"Você... Você é eu?" perguntei.
"Sim, Danilo. Eu sou o Danilo" disse o outro eu.
"Você pode responder minha pergunta?" perguntei.
"Você que tem que responde-la. Você sabe a resposta" disse o outro eu.
"Ok... Ok, Eu - isso soou estranho - Se eu soubesse eu não teria perguntado" disse eu.
O outro riu. Não gostei da minha risada, ou melhor, da risada dele... Ah esquece!
"Você já fez tantas perguntas até aqui, e todas foram respondidas" disse o outro eu.
"Sim. Mas os outros eram meus personagens, não meu clone, por isso você não deve saber as respostas" disse eu.
"tsc, tsc. Você é um babaca. Se todos os personagens vivem dentro da sua mente, todas as falas e respostas deles também, ou seja, todas as perguntas que você fez anteriormente foi você mesmo que respondeu, inclusive isso agora" disse o outro eu.
"Como eu saio daqui?" perguntei.
"Se você responder aquela pergunta eu deixo você sair" disse o outro eu.
"Que pergunta?" perguntei.
"Aff, que babaca. A pergunta 'Como assim esse não é meu único sonho?' sacou, babaca desligado?" disse o outro eu.
"Eu não tenho outro sonho" disse eu.
"Pare e pense. Nem ser cineasta é seu sonho, Danilo. Seu sonho é outro" disse o outro eu.
Parei para pensar. Pensei em todas as alternativas de escolha que meu pai me dava e pensava no caminho que eu queria seguir, o do cinema, este o qual ninguém da minha família, inclusive meu pai, apoiava. Eu só queria poder fazer cinema, mas eu não queria decepcionar meu pai principalmente, eu queria deixá-lo orgulhoso. Mas no fundo, deixar meu pai orgulhoso não era meu sonho, e então pensei mais um pouco, sim, eu sabia a resposta.
"Que demora, hein?" disse o outro eu.
"Eu sei a resposta" disse eu.
"Não erre"
"Meu sonho é fazer o que eu quero e não me sentir mal por causa disso" disse eu.
Meu outro eu soltou um sorriso.
"Como diria você 'Congratulations, little zombie'" disse o outro eu.
Voltei ao lugar escuro, o holofote agora estava sob o meu outro eu.
"Como eu estou pensando nisso tudo?" perguntei.
"Você está sonhando" disse meu outro eu.
"Eu não lembro de ter ido dormir e começado a sonhar" disse eu.
"Aff, Dan. Você como bom admirador de cinema deve ter assistido A Origem com Leo di Caprio, como você o chama" disse meu outro eu.
"E daí? Vai falar agora que eu me sedei para sonhar com isso" disse eu.
"Numa parte do filme o personagem do Leo di Caprio diz 'Você nunca se lembra do começo de um sonho', você se lembra de ter chegado à aquela boate?" perguntou o outro eu.
"Não. Eu devia ter me lembrado da ideia desse filme" disse eu.
"Você anda pensando muito nisso, não é de se espantar que você tenha criado esse pequeno conflito num sonho. Apenas siga o seu caminho" disse o outro eu.
"Eu não ando sonhando muito" disse eu.
"Não se esqueça disso aqui. E continue escrevendo, fiquei sabendo que anda ganhando leitores novos" disse o outro eu.
"Nós ganhamos" disse eu.
O outro eu bateu palmas duas vezes.
Acordei quase cuspindo meu pulmão, além de me assustar com o som irritante do despertador. Desliguei o despertador e me levantei.
Fui até o banheiro e molhei o rosto, a rotina estava começando. Com o rosto molhado olhei para eu no espelho e cochichei a mim mesmo:
"Bem-vindo de volta ao mundo real, little zombie".
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