Dentre todas as culturas existentes e já extintas, o mal, ou, se assim preferir, o Mal, sempre arranjou um jeito de ser personificado em algum ser, seja ele mitológico ou humanoide. São feitas várias comparações ainda nos dias de hoje para encontrar um cânone da história desses seres que representam o bem e o mal de formas heterogêneas. A falta de provas e, em contramão, a imensa quantidade de relatos e seguidores, criam uma dança estatística que sobe e desce a todo momento. Estatísticas essas que se tratam sobre qual verdade está sendo mais bem aceita no plano geral.
Já há muito tempo é sabível e praticamente obrigatório que em toda história os personagens devem ter motivações que os levem atrás de seus objetivos. Se analisarmos nesse contexto, qual a motivação do bem e do mal retratados pelas religiões? Numa guerra sem precedentes e praticamente infindável, o bem e o mal lutam incansavelmente por interesses até então desconhecidos. Na maioria das vezes, o centro da luta tem um núcleo mútuo: o homem. É ele que sofre, que é inconsequente, inocente e é digno de conquistar seu perdão.
A dificuldade de estabelecer um ponto sólido está quando não temos uma verdade absoluta definida, apenas uma guerra injustificada em que nós somos quem tem que ficar sob a asa de alguém superior e mais poderoso.
Sempre encontrei o equilíbrio perfeito ao tentar não pensar em seres, em guerras e apenas em que no Universo existe apenas uma coisa: o Poder. Um meteoro de apenas dois quilômetros pode devastar seu país ou até mesmo seu continente, um mosquito te matar, uma estrela deixar de existir ou um copo cair da sua mão e espatifar no chão, é importante notar que as coisas podem acontecer. A distinção entre o que é bom e o que é ruim é totalmente culpa nossa. O bem e o mal, nesse contexto, não existem, eles são apenas parte de um sistema natural agora homogêneo, exponencial e irracional.
Outro ponto interessante para analisar é como o mal foi personificado e como ele é diferente se compararmos as versões de épocas, religiões e culturas diferentes. Para muitos, ao olhar para uma catástrofe na vida é suficiente para entender esse conceito. O sofrimento. Isso não precisa de uma imagem, ao contrário do bem que precisa ser personificado porque, como o saudoso George Orwell já nos mostrara, é muito mais fácil nos apegarmos à um de nós do que à um conceito. Outros enxergam o mal de outra forma; muitas vezes personificado em alguém de extrema beleza e que reluza o sucesso pessoal e a ostentação de aparência e liberdade de espírito e pensamento. Mas por que isso é errado? Todos querem ser bem sucedidos. O que conta aí é o infame desejo de se sentir maior, melhor e até mesmo uma imagem posta como boa referencia para outras pessoas. Isso vem em diferentes formas em questionamentos sobre sexo, por exemplo. Porém, apesar disso tudo, o mais comum é a esdrúxula imagem do ser forte, grande e de chifres enormes mais pesados que seu próprio crânio. Sempre referenciado com cores avermelhadas que lembram o sofrimento, o sangue e o fogo; um sentimento é não esperado por ninguém, um líquido que representa nossa vida e a continuidade da mesma e um elemento que nos enganamos ao dizer que podemos controlar, pois sem nossas faculdades, se torna uma das maiores ameaças à nossa espécie.
Sendo assim, o mal, ou seja lá qual for o nome que você dê, é um inimigo desconhecido e um problema que arranjamos para nós mesmos. Se ele existe ou não, isso é o de menos, mas de que forma estamos à trata-lo e de que forma ele pode ser considerado (à todos) cânone?
segunda-feira, 12 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Honra
À beira da morte, após uma longa caminhada íngreme e sinuosa, ele finalmente avistou a enorme boca da caverna que avistou quando estava aos pés da enorme montanha que o separava do império japonês. Sua armadura estava com quase todas os suspensórios soltos, mas se mantinha junto ao corpo de Hiroshi com certa insistência inexplicável. Recostou-se numa rocha maior que seu busto e descansou.
Ao amanhecer, percebeu duas flechas quebradas nas costas. Causava-lhe uma dor terrível e excruciante ao tentar se mexer. Perguntou-se por um momento como conseguiu andar tanto. Resolveu não mexer no ferimento e banhou-se precariamente com um leito d'água que corria à caverna garganta adentro.
O sol tocou sua pele como sua mãe penteava seus longos cabelos. Respirou fundo por um momento ouvindo apenas o som da floresta e tentando imaginar seu reino do outro lado da montanha. Não sentia-se perdido, pelo contrário, sentia-se mais perto do que nunca da vitória. Talvez este tenha sido o momento mais tocante da vida de Hiroshi Inagaki. Ao caminhar caverna afora, sem forças suficiente para manter-se em pé, o soldado é traído pelos próprios membros causando uma queda brusca de pelo menos três metros de altura. Uma das flechas adentra seu corpo mais ainda. A queda deixou Hiroshi entre duas pedras enormes e com uma das pernas suspensas para o alto. Ele não sentia sua outra perna que parecia ter quebrado com a queda. Sua espada estava ao seu lado, ao alcance das mãos, mas nada podia fazer com ela. Por ali, ele permaneceu por dias.
Após cinco dias com pouca variação de posição corporal, Hiroshi começou a pensar que talvez nunca sairia dali. Tinha matado a sede com a chuva que caíra há duas noites e enganava o estômagos com alguns insetos afortunados. Sentia-se sujo e impotente. O mesmo sol que antes o lembrara da mãe, agora o fazia pensar sobre o inferno.
No sétimo dia, Hiroshi pensou em seu falecido mestre, o samurai Eiji Yoshikawa. Era, desde a morte de Yoshikawa, um ronin* e havia se tornado-se um poucos minutos antes da batalha com a aldeia inimiga cessar. As sábias palavras do mestre perpetuaram em sua mente e definiram seu destino dali para frente.
O sonho mais persistente do homem é a honra, pois com ela o respeito vem junto. A morte de um Samurai deve ser honrada, pois em morte, o homem deve deixar esse mundo da mesma forma que viveu. Porém, poucos são dignos disso.
Lembra-se de perguntar o porquê de poucos serem dignos de morrer assim e recorda-se rapidamente da resposta de Yoshikawa.
Muitos acreditam que poderão, em morte, acompanhar a vida humanoide. Em morte, você deve se desligar do mundo e confiar seus atos, histórias e sua própria honra ao vento e esperar que o mesmo atinja gerações. Somente o homem que contemple tal desejo é digno de tamanha honraria.
Ao anoitecer do sétimo dia, pensou no império japonês efervescendo do outro lado da montanha. Pensou em sua mulher e nas delicadas mãos de sua mãe. Com uma última força e quase sucedendo a dor, retirou a perna suspensa e, quase sem senti-la, recostou-se a rocha.
Seu corpo estava febril quando ele cortou os últimos suspensórios da armadura. Percebeu em seu quadril um corte superficial e em seu ombro uma queimadura que por pouco não atingira a carne. Pegou sua espada e pressionou contra seu abdômen.
Por um momento imaginou o som da cidade. As rodas das carroças de comerciantes contrabatendo com o paralelepípedo das ruas. O som das cozinhas mais quentes da Ásia. O arrastar de pés no chão de sua casa. Imaginou até o campo de batalha, agora vazio e silencioso. Pensou até em uma possível recuperação, mas provavelmente iria perder uma perna e os soldados da aldeia inimiga iram persegui-lo e isso poderia trazer consequências à sua família. Lembrou-se das regras infringidas contra seus deuses e deu-se motivos suficientes para abrir os olhos e encarar a última cor que veria no mundo.
Pôs-se de busto ereto e terminou com seus dias em um preto que fundiu-se à luz interceptada por seus olhos.
*Ronin era samurai que não seguia a um daimyo (senhor de terras). Em geral é um solitário. Na cultura Japonesa, crê-se que todo homem segue um destino, uma linha. O Ronin por sua vez faz jus ao seu nome: Homem-Onda. Não tem sentido, nem destino (como as ondas do mar).
*Esse conto é baseado no livro Bushi, ainda em produção por mim, Danilo Silva.
Ao amanhecer, percebeu duas flechas quebradas nas costas. Causava-lhe uma dor terrível e excruciante ao tentar se mexer. Perguntou-se por um momento como conseguiu andar tanto. Resolveu não mexer no ferimento e banhou-se precariamente com um leito d'água que corria à caverna garganta adentro.
O sol tocou sua pele como sua mãe penteava seus longos cabelos. Respirou fundo por um momento ouvindo apenas o som da floresta e tentando imaginar seu reino do outro lado da montanha. Não sentia-se perdido, pelo contrário, sentia-se mais perto do que nunca da vitória. Talvez este tenha sido o momento mais tocante da vida de Hiroshi Inagaki. Ao caminhar caverna afora, sem forças suficiente para manter-se em pé, o soldado é traído pelos próprios membros causando uma queda brusca de pelo menos três metros de altura. Uma das flechas adentra seu corpo mais ainda. A queda deixou Hiroshi entre duas pedras enormes e com uma das pernas suspensas para o alto. Ele não sentia sua outra perna que parecia ter quebrado com a queda. Sua espada estava ao seu lado, ao alcance das mãos, mas nada podia fazer com ela. Por ali, ele permaneceu por dias.
Após cinco dias com pouca variação de posição corporal, Hiroshi começou a pensar que talvez nunca sairia dali. Tinha matado a sede com a chuva que caíra há duas noites e enganava o estômagos com alguns insetos afortunados. Sentia-se sujo e impotente. O mesmo sol que antes o lembrara da mãe, agora o fazia pensar sobre o inferno.
No sétimo dia, Hiroshi pensou em seu falecido mestre, o samurai Eiji Yoshikawa. Era, desde a morte de Yoshikawa, um ronin* e havia se tornado-se um poucos minutos antes da batalha com a aldeia inimiga cessar. As sábias palavras do mestre perpetuaram em sua mente e definiram seu destino dali para frente.
O sonho mais persistente do homem é a honra, pois com ela o respeito vem junto. A morte de um Samurai deve ser honrada, pois em morte, o homem deve deixar esse mundo da mesma forma que viveu. Porém, poucos são dignos disso.
Lembra-se de perguntar o porquê de poucos serem dignos de morrer assim e recorda-se rapidamente da resposta de Yoshikawa.
Muitos acreditam que poderão, em morte, acompanhar a vida humanoide. Em morte, você deve se desligar do mundo e confiar seus atos, histórias e sua própria honra ao vento e esperar que o mesmo atinja gerações. Somente o homem que contemple tal desejo é digno de tamanha honraria.
Ao anoitecer do sétimo dia, pensou no império japonês efervescendo do outro lado da montanha. Pensou em sua mulher e nas delicadas mãos de sua mãe. Com uma última força e quase sucedendo a dor, retirou a perna suspensa e, quase sem senti-la, recostou-se a rocha.
Seu corpo estava febril quando ele cortou os últimos suspensórios da armadura. Percebeu em seu quadril um corte superficial e em seu ombro uma queimadura que por pouco não atingira a carne. Pegou sua espada e pressionou contra seu abdômen.
Por um momento imaginou o som da cidade. As rodas das carroças de comerciantes contrabatendo com o paralelepípedo das ruas. O som das cozinhas mais quentes da Ásia. O arrastar de pés no chão de sua casa. Imaginou até o campo de batalha, agora vazio e silencioso. Pensou até em uma possível recuperação, mas provavelmente iria perder uma perna e os soldados da aldeia inimiga iram persegui-lo e isso poderia trazer consequências à sua família. Lembrou-se das regras infringidas contra seus deuses e deu-se motivos suficientes para abrir os olhos e encarar a última cor que veria no mundo.
Pôs-se de busto ereto e terminou com seus dias em um preto que fundiu-se à luz interceptada por seus olhos.
*Ronin era samurai que não seguia a um daimyo (senhor de terras). Em geral é um solitário. Na cultura Japonesa, crê-se que todo homem segue um destino, uma linha. O Ronin por sua vez faz jus ao seu nome: Homem-Onda. Não tem sentido, nem destino (como as ondas do mar).
*Esse conto é baseado no livro Bushi, ainda em produção por mim, Danilo Silva.
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