A vizinha está acordada também, e sua cadela está latindo fazendo o latir ecoar até o final da minha rua sem saída, onde moro. Sempre há um som de portão de garagem sendo erguido, e som de motor sendo esquentado. Eu bocejo, bocejo muito. Nunca fui fã de acordar cedo, nunca fui fã de muita coisa além de coca-cola, vídeo-games, zumbis, filmes e livros. Minha vizinha passa de um lado ao outro no quintal dela, vai até o varal e pega alguma blusinha - como as mulheres delicadamente apelidam - e entra na casa dela de novo. Eu ainda estou sentado na varanda, estou curiosamente olhando para as poucas luzes amarelas ligadas nas varandas e janelas dos prédios. Levanto, vou até a cozinha, pego café, abro o notebook na mesa e twitto "bom dia twitter". Bocejo. Saiu de novo. Minha vizinha saí de casa com um cigarro no canto da boca e o maldito cheiro da nicotina chega aos meus pulsões. Cuspo o cheiro pelo nariz.
Saiu de casa, e na esquina há um morador na frente da casa fumando tranquilamente e olhando o passar das pessoas de um lado para o outro. Ele me encara, e sou obrigado a desejar bom dia. "Bom dia" eu digo. "Bom dia" responde o morador com a voz rouca e sonolenta. Depois da breve troca de palavras continuo andando sem olhar para trás. No ponto de ônibus avisto mais dois fumantes fumando tranquilamente. Me sento num daqueles bancos do ponto de ônibus e torço para o cheiro maldito do cigarro não chegar até mim. Em vão, o cheiro parece me procurar, e os ventos parecem estar sempre contra mim quando me deparo com esse tipo de situação. Bocejo.
O ônibus chega e eu o tomo, enquanto subo, os fumantes jogam o cigarro no chão e pisam em cima. O cheiro da fumaça do cigarro se mistura com o cheiro da fumaça do ônibus e fode tudo, o mundo chega a girar. Sento sempre no último banco do ônibus, me acomodo, ponho a mochila no meu colo e passo a viagem inteira olhando pela janela. Bocejo. E bocejo de novo, fazendo uma careta estranha, abaixo a cabeça, e depois vergonhosamente ergo-a e confiro se tem alguém que riu do meu bocejo.
A cada ponto de ônibus vejo mais fumantes, aonde quer que eu vá há fumantes, parece uma epidemia onde todos estão doentes. Há fumantes no ponto de ônibus, na frente das padarias, nos estacionamentos de lojas, na frente do super-mercado, na frente das escolas, checando o jornal do dia na banca de jornais, nos camelôs, em todo lugar. É horrível.
Após um dia cheio, volto para casa cansado e com o cheiro da nicotina ainda no pensamento. Na volta vejo mais fumantes. Eles tragam até encherem os pulmões e depois soltam toda a fumaça guardada nos pulmões para fora, como uma grande usina liberando fumaça dos fornos gigantes.
Há uma mulher bonita parada numa padaria, está fumando. Ela tem cabelos louros, está de calças jeans, e está com uma blusa branca apertada. Ela é provocante. Seus lábios são finos, e seu nariz empinado. O cigarro está no canto da boca e ela meche no celular. A fumaça diante de seus olhos castanhos me lembra o trecho daquela música do Arctic Monkeys "the cigarette smoke in your eyes...". Chega um homem, com um carro simples, ela entra e vai embora. Da padaria saí um homem com um maço de cigarros ainda lacrado. Sua roupa está suja de poeira, e suas calças surradas estão rasgadas. Ele caminha até a obra de um prédio ali por perto.
Lá estou eu andando de novo, sento e espero o próximo ônibus a pegar. Um homem gordo com um cigarro na boca vem costurando a multidão parada no ponto segurando a mão de sua provável filha. A menina se senta ao meu lado e observa o pai fumando.
Não muito longe desse pai fumante há um outro fumante e ao seu lado mais outro fumante, que tem ao seu lado um outro fumante gordo, que tem ao seu lado uma fumante idosa e magra com um batom feio nos lábios, que ao seu lado tem um jovem magrinho fumando também, que ao seu lado tem um homem alto de óculos estranhos fumando, que ao seu lado tem um pai fumante fumando que tem uma filha que provavelmente estará fumando também daqui uns anos, e estará estragando e sobrecarregando mais uma das minhas manhas fumacentas e mal-cheirosas.
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