quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Sete Mares de Coca-Cola

Depois que Red partiu no último post, é minha vez de dizer adeus, meus caros.
A primeira linha desse post foi escrita há três anos atrás e hoje sinto uma ligeira necessidade de revelar minhas verdadeiras intenções quanto criei esse blog e agora que estou fechando. Não estaria vivo à altura que esse post fosse ao ar. Porém, muita coisa mudou nesse meio tempo. Conheci muitas pessoas. Amei algumas e odiei outras. Me descobri um amante incondicional dos dias, da rotina geral e do movimento. Esse amor revelado toda vez que sento e paro para observar as coisas funcionando, desde carros à pessoas, de empresas à pequenas padarias. Nos comportamos de uma forma tão previsível, tão restrita ao nosso campo de visão que faz os atores e atrizes, por vezes, tão caricatos, parecem mais reais que nós mesmos. Tão previsíveis que a arte se torna necessária. Tão previsíveis não é tão difícil de entender porque a morte é um evento tão natural e tão inusitado para a grande maioria das pessoas. Sonhei que morri esses dias. Permaneci consciente e não podia me mexer. Foi desesperador e decepcionante ao mesmo tempo.
Finalmente, gostaria de agradecer você, querido viajante que velejou por todos esses mares. A verdade final é que minha intenção inicial há três anos atrás era estar morto quando esse post finalmente fosse ao ar, como disse logo no começo desse post. Sim. Me matar. Pular da ponte. Me drogar. Me fazer algum corte fatal. Me jogar na frente de um carro, de um trem. Me matar. Pode dizer que isso soa forte demais, mas para um adolescente de quinze anos naquela época não parecia. Eu tinha tudo em mente e sabia como falecer dormindo. Parecia-me tão coerente. Meu pai estava prosperando em um emprego, assim como minha mãe. Meus irmãos estudavam em escolas particulares e pareciam tão felizes quanto meus pais. Apenas eu, restrito em meu universo pessoal, me pegava numa profunda e densa tristeza que amargurava meu peito pedaço por pedaço. Foi a época que percebi que muitas das coisas que planejei fazer - tais essas, coisas extraordinárias - não poderiam jamais serem realizadas. Não por causa de dinheiro. Não por falta de tentativa. Era apenas complicado demais para explicar e muito pessoal para divulgar. Sempre fiz muitos planos, sempre gostei de planejar o futuro. Não é difícil de fazer isso quando você escreve. Desde então, comecei aos poucos me afastar de todos. Me tornei uma pessoa mais calculista e apaixonada por coisas menores. Isso me ensinou a não ser rude com os outros e saber ouvir. Me ensinou a escrever não apenas para mim, mas como também para o leitor. Começou aí então a sumir os resquícios de egoísmo e tantos outros pensamentos negativos que rondavam minha mente. O cinema maximizou essa ação. 
Por todos os caminhos que percorri, eu encontrei algumas pessoas que foram fundamentais para eu mudar de ideia com o tempo. Se você está lendo e me conhece, provavelmente deve saber (ou em breve irá) que foi fundamental para isso. E eu, que por vezes sou apelidado de Bruce Wayne, foi quem realmente foi salvo; e o mais irônico que fui salvo por aquilo que eu não acreditava: Pessoas.
Se você está lendo isso e algo me aconteceu, não se preocupe. Não guardo ódio mais. Nem por ela e nem por ele. Nem por fulano e nem por ciclano. No fundo, apesar do estresse, apesar dos meus personagens, eu sou um cara feliz. Só estava a procura de ser sempre mais porque acredito que tudo isso aqui, esse exato momento que você está vivendo agora e os próximos que virão, se tratam apenas disso: Ser. Ser sempre mais.

Obrigado, meus amigos leitores e também a você que compartilhou minha rotina.

Obrigado, P.F, P.A, L.B, I.S, D.S, Di.S, C.E, R.S, H.B, Família S, e a mais recente, mas tão importe e tão amada quanto, E.V. Amo-vos.

Um fantoche, um indigente, um pirata, um poeta, um peão e um rei

Mr. Red já estava a minha espera.
Cheguei ao Central Park por volta da meia-noite, apenas algumas pessoas permaneciam ali. Joguei o pacote de cigarros Kool em seu colo para chamar atenção. O pacote quicou em seu colo e caiu sobre a grama. Sentei-me junto a sua companhia e ficamos cada um sobre um extremo do banco. Parecíamos dois espiões franceses trocando pacotes. Ele recolheu o pacote de Kool do chão e disse asperamente:

"Obrigado"

Acenei com a cabeça em resposta ao agradecimento. Encarei as árvores. Observei as últimas pessoas fazendo uma pequena corrida antes de dormir e encarei Red. Ele tentava abrir o pacote de Kool selado por plástico.

"O que você vai fazer?" perguntei.

"Não tenho ideia ainda."

"Sinto que essa é nossa última conversa"

"É... provavelmente" disse ele finalmente levando um cigarro à boca.

O celular de Red tocou. Ele conferiu ligeiramente quem era e praguejou algo. Levantou e jogou o celular o mais longe que conseguiu.

"Ainda está vendo o psicologo?" perguntei.

"Na verdade, eu nunca fui. Pagava, mas não ia. Aquele velho era uma perca de tempo" disse Red rindo e voltando a sentar-se.

"Você conseguiu um trabalho ficar rico com esse tipo de atitude?"

"Você conseguiu viver até hoje com esse nariz enorme na vida dos outros?"

Rimos ligeiramente, o tanto que o momento permitia.

"Você se meteu com negócios errados, não é? Está jurado?"

"Meu Deus... Você não para!" disse Red cuspindo fumaça.

"Só queria saber. Você é a única pessoa que conheço de verdade nessa cidade"

Me calei por um momento e voltei a observar o parque. Decidi abrir minha mochila. De lá, tirei um pacote de papel. Entreguei à Red.

"O que é isso?" ele perguntou antes de receber.

"Pegue. Você vai precisar" disse.

Mr. Red abriu o pacote com cuidado e logo fechou o mesmo ao perceber que dentro havia uma 9mm.

"Que porra..." 

Antes que pudesse completar, expliquei:

"Não esquenta! Numeração raspada e ela está cheia. Comprei há algum tempo, vai precisar mais do eu"

"Para quê? Eu tenho as minhas"

"Não tem, Red. Foram confiscadas. Você não engana ninguém."

"Como você sabe?" disse ele jogando o cigarro fora.

"Agora eu sei."

Red colocou a arma sob o terno e passou as mãos nos cabelos. Parecia exausto. Seu silencio me confirmava aquilo, ele não dizia muito, só o necessário. Também cheirava fortemente a bebida e tinha perdido as abotoaduras da camisa. Qualquer um na rua o confundiria com um bêbado qualquer. Mas ele não era um qualquer e aquele dia eu conheci Red de verdade.

"Eu odeio essa cidade. É tão grande e opressora. Tudo que fiz está selado junto a esse chão maldito. Cada centavo. Cada mulher. Cada aperto de mão."

"Nova York é icônica. Não sei como você consegue odiar."

"Você e esse fascínio idiota. Isso vai te matar um dia, Danilo" disse Red.

"É. Talvez"

"Não gosto de pensar que mais de sessenta por cento da minha vida está aqui."

"Você viajou bastante" disse.

"A grandeza de uma vida inteira não cabe no universo. Do intelecto aos passos" disse Red.

Ele se levantou e estendeu a mão na minha direção. Levantei e apertei sua mão. Seu semblante reluzia exaustão. Apertamos as mãos por pouco mais de dez segundos segundos, até ele finalmente soltar e levar uma das mãos ao bolso interno do terno e tirar mais um cigarro.

"Não importa quem quer ver você morto, Red, o cigarro te leva antes" eu disse.

"Será? E o que eu te disse sobre o nariz?"

"Só estou te dando um conselho"

"Aqui vai um conselho: Encontre uma garota, meu amigo. Case. Tenha filhos. Viva porque morto você já é" aconselhou Red.

É impossível descrever o quão abruptas essas palavras soaram naquela hora. Mr. Red vivia uma vida de orgias e renovações amorosas. Ele me parecia totalmente contra casamento.

"Você sabe que isso não é para mim" disse.

"Você é um escritor em Nova York, Danilo. Isso é perfeito para você."

"Vou levar como um elogio" respondi.

"Moço de família, você" disse Red tragando.

"Por que me chamou aqui, Red?" perguntei. 

Mr. Red cuspiu fumaça e pareceu pensar por alguns instantes. Colocou uma das mãos sobre meu ombro e disse:

"Eu fiz o que tinha que fazer aqui. A gente não vai mais se ver e eu gostaria que você contasse para alguém sobre isso tudo"

"Isso tudo?" questionei.

"Toda essa merda que aconteceu. Quero que isso venha a público."

"Mas o que tem para as pessoas saberem, Red?"

"Porra, meu caro... Muita coisa. Você vai entender quando se puser a pensar. Você é meio trouxa às vezes, mas consegue fazer isso"

Red deu dois tapas no meu ombro e se pôs a andar. Ainda andando, sem ao menos olhar para minha direção, ele disse:

"E feliz natal, escritor!"

"O natal já passou, idiota!"

Mr. Red gargalhou e abriu os braços lamentando ironicamente. Quando sua silhueta sumiu nas sombras dos arvoredos, eu desacreditei minhas próprias palavras. O desgraçado já era tão presente nos meus dias que era difícil acreditar que aquela poderia ser a última vez que eu o veria.
Me coloquei a andar à direção oposta a de Red e acenei para um táxi quando cheguei a rua. Voltei para casa. 
De fato, aquela foi a última vez que eu vi Mr. Red. Sim. Perto do seu apartamento no Soho, o mesmo que ele usava quando não queria ser encontrado, Red foi atropelado por um furgão e o motorista desceu e disparou três tiros em seu rosto. Naquela noite, eu não dormi.
Fiquei sabendo sobre sua morte ao chegar à redação do New York Post. Fred Castillo estava cuidando da matéria do dia seguinte que trazia todos os detalhes da morte e vida de Mr. Red. De certa forma, não fiquei chocado. Sua foto estampava a capa do jornal ao lado de uma miniatura que trazia uma foto de seu corpo coberto por papel térmico. A chamada da capa dizia "Milionário de Wall Street é assassinado!" e a legenda completava "Mr. Red, suspeito de estar envolvido em um golpe milionário com gangues de traficantes, foi morto em frente de casa".
Parei atrás da baia de Frank Castillo e o observei escrevendo por alguns segundos. A sua linha de conclusão da matéria dizia "Ele. Red, o milionário festeiro de Nova York".

"Você sabe que ele foi mais que isso, não é?" disparei contra Castillo.

O redator se virou ao ouvir minha voz.

"Perdão, o quê?" ele respondeu.

"Ele não era apenas festeiro. Mr. Red era um Jay Gatsby. Tinha dinheiro e ainda conquistava qualquer um com suas palavras, de negócios à amantes"

"Por que o trata por Mr.? Trabalhava para ele?" perguntou Castillo confuso.

"Pode se dizer que sim. Mas ele gostava que o chamassem por Mr. Red"

"Me parece um pouco exagerado. Ele era novo"

"Ele é Frank Sinatra da nossa geração. O homem que todo homem quer ser. Você não precisa entender, basta olhar para o sujeito."

"Sinto muito, Dan" disse Castillo.

"Tá tudo ok. Vou ir para minha mesa" disse eu me afastando.

Segui para minha mesa vigiado por todas as pessoas que sabiam que eu conhecia Red. Não me incomodei. Desejei bom dia a todos os olhares. Castillo me chamou ao fundo. Me virei e atendi a sua pergunta.

"Você sabe o nome de nascença ou apenas o primeiro nome do cara? Parece que ele nunca se apresentou com outra identidade" ele perguntou.

Estendi um sorriso irônico e depois gargalhei ligeiramente.

"Quer saber o que acabei de perceber, Fred? Eu nunca perguntei isso ao filho da puta"

Castillo me encarou sem expressão. Me peguei rindo novamente e voltei meus passos à minha mesa. Tirei o terno e afrouxei a gravata antes de me sentar. Abri meu notebook e me acomodei na cadeira e comecei a trabalhar. Tentei não pensar no assassinato e nem em teorias de quem poderia ter ordenado o crime. Escrevi sobre outras coisas. Pelas dez da manhã, Jane - secretária do meu setor -  trouxe correspondências para mim. Algumas cartas de resposta à minha coluna e alguns pacotes. Deixei tudo de lado e trabalhei.
Fui embora do escritório depois das 22 horas. Fui o penúltimo a deixar o estacionamento com o carro. Dirigi direto para casa e ao estacionar em frente do meu apartamento, não consegui achar minhas chaves. Comecei a vasculhar o porta-luvas e temia por tê-las esquecido no trabalho. Me deparei com o banco cheio de cartas que Jane havia me entregado naquela manhã. Coloquei-as todas de lado e encontrei minhas chaves sob as cartas. Peguei as tais cartas de volta e joguei sob o banco novamente sem muito carinho e atenção, a não ser por um peculiar pacote marrom do tamanho de um sulfite A4. Recolhi o pacote e o observei. Decidi leva-lo comigo para o apartamento.
Ao entrar, joguei chaves, pacote e terno sob o sofá e fui diretamente para a ducha. Depois disso, não lembro como fui parar na cama. Sei apenas que acordei naquela manhã nebulosa do último sábado de Dezembro. 
Sentei no meu sofá e liguei a TV. Os tabloides trataram isso como apenas um acerto de contas entre os poderosos da cidade. Abri meu notebook e fui diramentamente ler a matéria de Castillo. Observei que Fred Castillo parecia me responder ao trocar a chamada da matéria sobre Red. Ele repetia minhas palavras seguida de um ponto de interrogação irônico "O homem que todo homem quer ser?". Isso definitivamente me fez rir.
Observei o pacote ao meu lado e resolvi abri-lo. Rasguei o lacre e deixei o conteúdo cair na minha mão. Um CD foi o que saiu do pacote. Ao virar para ver a frente do CD, me surpreendi com um encarte que trazia uma montagem um tanto que bizarra de uma stripper ruiva na Times Square. Uma fita colada logo abaixo a stripper trazia a mensagem "Feliz natal, seu filho da puta". Não demorei a conectar a façanha à Red e logo inseri o CD no drive do meu notebook. 
O iTunes abriu e "Theme From New York" começou a tocar sob a voz de Frank Sinatra. Na playlist, ainda haviam "That's Life" encerrada por "My Way", todas as suas favoritas do Sinatra. Eu gargalhei por alguns momentos e ouvi o CD inúmeras vezes.
Então decidi escrever finalmente sobre Red. Abri meu blog, nomeei aquele post como "Start Spreading the News" e me pus a escrever sobre o sujeito:

Mr. Red viveu intensamente. Ele amou, riu e chorou. Talvez tenha sido um fantoche, ou um indigente, mas também foi um pirata, um poeta, um peão e um rei de seu tempo. Tinha tudo que queria, quando queria e da forma que queria. Não importava se ia custar dólares ou dedos.
Porém, ironicamente, não posso atender completamente ao desejo de Mr. Red, senhoras e senhores. Não creio que ainda que ele está morto, mas gostaria de começar assim. Saiba que ele morre no final das contas e que essa história que estou prestes a contar para todos vocês não terá um final propriamente. Por quê? Vivo me perguntando isso também: Por que não tem final?
Red disse algumas coisas na última vez que o vi e acredito que, depois daquela conversa, haja apenas uma resposta, proferidas por ele mesmo naquela noite: A grandeza de uma vida inteira não cabe no universo.