quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Sete Mares de Coca-Cola

Depois que Red partiu no último post, é minha vez de dizer adeus, meus caros.
A primeira linha desse post foi escrita há três anos atrás e hoje sinto uma ligeira necessidade de revelar minhas verdadeiras intenções quanto criei esse blog e agora que estou fechando. Não estaria vivo à altura que esse post fosse ao ar. Porém, muita coisa mudou nesse meio tempo. Conheci muitas pessoas. Amei algumas e odiei outras. Me descobri um amante incondicional dos dias, da rotina geral e do movimento. Esse amor revelado toda vez que sento e paro para observar as coisas funcionando, desde carros à pessoas, de empresas à pequenas padarias. Nos comportamos de uma forma tão previsível, tão restrita ao nosso campo de visão que faz os atores e atrizes, por vezes, tão caricatos, parecem mais reais que nós mesmos. Tão previsíveis que a arte se torna necessária. Tão previsíveis não é tão difícil de entender porque a morte é um evento tão natural e tão inusitado para a grande maioria das pessoas. Sonhei que morri esses dias. Permaneci consciente e não podia me mexer. Foi desesperador e decepcionante ao mesmo tempo.
Finalmente, gostaria de agradecer você, querido viajante que velejou por todos esses mares. A verdade final é que minha intenção inicial há três anos atrás era estar morto quando esse post finalmente fosse ao ar, como disse logo no começo desse post. Sim. Me matar. Pular da ponte. Me drogar. Me fazer algum corte fatal. Me jogar na frente de um carro, de um trem. Me matar. Pode dizer que isso soa forte demais, mas para um adolescente de quinze anos naquela época não parecia. Eu tinha tudo em mente e sabia como falecer dormindo. Parecia-me tão coerente. Meu pai estava prosperando em um emprego, assim como minha mãe. Meus irmãos estudavam em escolas particulares e pareciam tão felizes quanto meus pais. Apenas eu, restrito em meu universo pessoal, me pegava numa profunda e densa tristeza que amargurava meu peito pedaço por pedaço. Foi a época que percebi que muitas das coisas que planejei fazer - tais essas, coisas extraordinárias - não poderiam jamais serem realizadas. Não por causa de dinheiro. Não por falta de tentativa. Era apenas complicado demais para explicar e muito pessoal para divulgar. Sempre fiz muitos planos, sempre gostei de planejar o futuro. Não é difícil de fazer isso quando você escreve. Desde então, comecei aos poucos me afastar de todos. Me tornei uma pessoa mais calculista e apaixonada por coisas menores. Isso me ensinou a não ser rude com os outros e saber ouvir. Me ensinou a escrever não apenas para mim, mas como também para o leitor. Começou aí então a sumir os resquícios de egoísmo e tantos outros pensamentos negativos que rondavam minha mente. O cinema maximizou essa ação. 
Por todos os caminhos que percorri, eu encontrei algumas pessoas que foram fundamentais para eu mudar de ideia com o tempo. Se você está lendo e me conhece, provavelmente deve saber (ou em breve irá) que foi fundamental para isso. E eu, que por vezes sou apelidado de Bruce Wayne, foi quem realmente foi salvo; e o mais irônico que fui salvo por aquilo que eu não acreditava: Pessoas.
Se você está lendo isso e algo me aconteceu, não se preocupe. Não guardo ódio mais. Nem por ela e nem por ele. Nem por fulano e nem por ciclano. No fundo, apesar do estresse, apesar dos meus personagens, eu sou um cara feliz. Só estava a procura de ser sempre mais porque acredito que tudo isso aqui, esse exato momento que você está vivendo agora e os próximos que virão, se tratam apenas disso: Ser. Ser sempre mais.

Obrigado, meus amigos leitores e também a você que compartilhou minha rotina.

Obrigado, P.F, P.A, L.B, I.S, D.S, Di.S, C.E, R.S, H.B, Família S, e a mais recente, mas tão importe e tão amada quanto, E.V. Amo-vos.

Um fantoche, um indigente, um pirata, um poeta, um peão e um rei

Mr. Red já estava a minha espera.
Cheguei ao Central Park por volta da meia-noite, apenas algumas pessoas permaneciam ali. Joguei o pacote de cigarros Kool em seu colo para chamar atenção. O pacote quicou em seu colo e caiu sobre a grama. Sentei-me junto a sua companhia e ficamos cada um sobre um extremo do banco. Parecíamos dois espiões franceses trocando pacotes. Ele recolheu o pacote de Kool do chão e disse asperamente:

"Obrigado"

Acenei com a cabeça em resposta ao agradecimento. Encarei as árvores. Observei as últimas pessoas fazendo uma pequena corrida antes de dormir e encarei Red. Ele tentava abrir o pacote de Kool selado por plástico.

"O que você vai fazer?" perguntei.

"Não tenho ideia ainda."

"Sinto que essa é nossa última conversa"

"É... provavelmente" disse ele finalmente levando um cigarro à boca.

O celular de Red tocou. Ele conferiu ligeiramente quem era e praguejou algo. Levantou e jogou o celular o mais longe que conseguiu.

"Ainda está vendo o psicologo?" perguntei.

"Na verdade, eu nunca fui. Pagava, mas não ia. Aquele velho era uma perca de tempo" disse Red rindo e voltando a sentar-se.

"Você conseguiu um trabalho ficar rico com esse tipo de atitude?"

"Você conseguiu viver até hoje com esse nariz enorme na vida dos outros?"

Rimos ligeiramente, o tanto que o momento permitia.

"Você se meteu com negócios errados, não é? Está jurado?"

"Meu Deus... Você não para!" disse Red cuspindo fumaça.

"Só queria saber. Você é a única pessoa que conheço de verdade nessa cidade"

Me calei por um momento e voltei a observar o parque. Decidi abrir minha mochila. De lá, tirei um pacote de papel. Entreguei à Red.

"O que é isso?" ele perguntou antes de receber.

"Pegue. Você vai precisar" disse.

Mr. Red abriu o pacote com cuidado e logo fechou o mesmo ao perceber que dentro havia uma 9mm.

"Que porra..." 

Antes que pudesse completar, expliquei:

"Não esquenta! Numeração raspada e ela está cheia. Comprei há algum tempo, vai precisar mais do eu"

"Para quê? Eu tenho as minhas"

"Não tem, Red. Foram confiscadas. Você não engana ninguém."

"Como você sabe?" disse ele jogando o cigarro fora.

"Agora eu sei."

Red colocou a arma sob o terno e passou as mãos nos cabelos. Parecia exausto. Seu silencio me confirmava aquilo, ele não dizia muito, só o necessário. Também cheirava fortemente a bebida e tinha perdido as abotoaduras da camisa. Qualquer um na rua o confundiria com um bêbado qualquer. Mas ele não era um qualquer e aquele dia eu conheci Red de verdade.

"Eu odeio essa cidade. É tão grande e opressora. Tudo que fiz está selado junto a esse chão maldito. Cada centavo. Cada mulher. Cada aperto de mão."

"Nova York é icônica. Não sei como você consegue odiar."

"Você e esse fascínio idiota. Isso vai te matar um dia, Danilo" disse Red.

"É. Talvez"

"Não gosto de pensar que mais de sessenta por cento da minha vida está aqui."

"Você viajou bastante" disse.

"A grandeza de uma vida inteira não cabe no universo. Do intelecto aos passos" disse Red.

Ele se levantou e estendeu a mão na minha direção. Levantei e apertei sua mão. Seu semblante reluzia exaustão. Apertamos as mãos por pouco mais de dez segundos segundos, até ele finalmente soltar e levar uma das mãos ao bolso interno do terno e tirar mais um cigarro.

"Não importa quem quer ver você morto, Red, o cigarro te leva antes" eu disse.

"Será? E o que eu te disse sobre o nariz?"

"Só estou te dando um conselho"

"Aqui vai um conselho: Encontre uma garota, meu amigo. Case. Tenha filhos. Viva porque morto você já é" aconselhou Red.

É impossível descrever o quão abruptas essas palavras soaram naquela hora. Mr. Red vivia uma vida de orgias e renovações amorosas. Ele me parecia totalmente contra casamento.

"Você sabe que isso não é para mim" disse.

"Você é um escritor em Nova York, Danilo. Isso é perfeito para você."

"Vou levar como um elogio" respondi.

"Moço de família, você" disse Red tragando.

"Por que me chamou aqui, Red?" perguntei. 

Mr. Red cuspiu fumaça e pareceu pensar por alguns instantes. Colocou uma das mãos sobre meu ombro e disse:

"Eu fiz o que tinha que fazer aqui. A gente não vai mais se ver e eu gostaria que você contasse para alguém sobre isso tudo"

"Isso tudo?" questionei.

"Toda essa merda que aconteceu. Quero que isso venha a público."

"Mas o que tem para as pessoas saberem, Red?"

"Porra, meu caro... Muita coisa. Você vai entender quando se puser a pensar. Você é meio trouxa às vezes, mas consegue fazer isso"

Red deu dois tapas no meu ombro e se pôs a andar. Ainda andando, sem ao menos olhar para minha direção, ele disse:

"E feliz natal, escritor!"

"O natal já passou, idiota!"

Mr. Red gargalhou e abriu os braços lamentando ironicamente. Quando sua silhueta sumiu nas sombras dos arvoredos, eu desacreditei minhas próprias palavras. O desgraçado já era tão presente nos meus dias que era difícil acreditar que aquela poderia ser a última vez que eu o veria.
Me coloquei a andar à direção oposta a de Red e acenei para um táxi quando cheguei a rua. Voltei para casa. 
De fato, aquela foi a última vez que eu vi Mr. Red. Sim. Perto do seu apartamento no Soho, o mesmo que ele usava quando não queria ser encontrado, Red foi atropelado por um furgão e o motorista desceu e disparou três tiros em seu rosto. Naquela noite, eu não dormi.
Fiquei sabendo sobre sua morte ao chegar à redação do New York Post. Fred Castillo estava cuidando da matéria do dia seguinte que trazia todos os detalhes da morte e vida de Mr. Red. De certa forma, não fiquei chocado. Sua foto estampava a capa do jornal ao lado de uma miniatura que trazia uma foto de seu corpo coberto por papel térmico. A chamada da capa dizia "Milionário de Wall Street é assassinado!" e a legenda completava "Mr. Red, suspeito de estar envolvido em um golpe milionário com gangues de traficantes, foi morto em frente de casa".
Parei atrás da baia de Frank Castillo e o observei escrevendo por alguns segundos. A sua linha de conclusão da matéria dizia "Ele. Red, o milionário festeiro de Nova York".

"Você sabe que ele foi mais que isso, não é?" disparei contra Castillo.

O redator se virou ao ouvir minha voz.

"Perdão, o quê?" ele respondeu.

"Ele não era apenas festeiro. Mr. Red era um Jay Gatsby. Tinha dinheiro e ainda conquistava qualquer um com suas palavras, de negócios à amantes"

"Por que o trata por Mr.? Trabalhava para ele?" perguntou Castillo confuso.

"Pode se dizer que sim. Mas ele gostava que o chamassem por Mr. Red"

"Me parece um pouco exagerado. Ele era novo"

"Ele é Frank Sinatra da nossa geração. O homem que todo homem quer ser. Você não precisa entender, basta olhar para o sujeito."

"Sinto muito, Dan" disse Castillo.

"Tá tudo ok. Vou ir para minha mesa" disse eu me afastando.

Segui para minha mesa vigiado por todas as pessoas que sabiam que eu conhecia Red. Não me incomodei. Desejei bom dia a todos os olhares. Castillo me chamou ao fundo. Me virei e atendi a sua pergunta.

"Você sabe o nome de nascença ou apenas o primeiro nome do cara? Parece que ele nunca se apresentou com outra identidade" ele perguntou.

Estendi um sorriso irônico e depois gargalhei ligeiramente.

"Quer saber o que acabei de perceber, Fred? Eu nunca perguntei isso ao filho da puta"

Castillo me encarou sem expressão. Me peguei rindo novamente e voltei meus passos à minha mesa. Tirei o terno e afrouxei a gravata antes de me sentar. Abri meu notebook e me acomodei na cadeira e comecei a trabalhar. Tentei não pensar no assassinato e nem em teorias de quem poderia ter ordenado o crime. Escrevi sobre outras coisas. Pelas dez da manhã, Jane - secretária do meu setor -  trouxe correspondências para mim. Algumas cartas de resposta à minha coluna e alguns pacotes. Deixei tudo de lado e trabalhei.
Fui embora do escritório depois das 22 horas. Fui o penúltimo a deixar o estacionamento com o carro. Dirigi direto para casa e ao estacionar em frente do meu apartamento, não consegui achar minhas chaves. Comecei a vasculhar o porta-luvas e temia por tê-las esquecido no trabalho. Me deparei com o banco cheio de cartas que Jane havia me entregado naquela manhã. Coloquei-as todas de lado e encontrei minhas chaves sob as cartas. Peguei as tais cartas de volta e joguei sob o banco novamente sem muito carinho e atenção, a não ser por um peculiar pacote marrom do tamanho de um sulfite A4. Recolhi o pacote e o observei. Decidi leva-lo comigo para o apartamento.
Ao entrar, joguei chaves, pacote e terno sob o sofá e fui diretamente para a ducha. Depois disso, não lembro como fui parar na cama. Sei apenas que acordei naquela manhã nebulosa do último sábado de Dezembro. 
Sentei no meu sofá e liguei a TV. Os tabloides trataram isso como apenas um acerto de contas entre os poderosos da cidade. Abri meu notebook e fui diramentamente ler a matéria de Castillo. Observei que Fred Castillo parecia me responder ao trocar a chamada da matéria sobre Red. Ele repetia minhas palavras seguida de um ponto de interrogação irônico "O homem que todo homem quer ser?". Isso definitivamente me fez rir.
Observei o pacote ao meu lado e resolvi abri-lo. Rasguei o lacre e deixei o conteúdo cair na minha mão. Um CD foi o que saiu do pacote. Ao virar para ver a frente do CD, me surpreendi com um encarte que trazia uma montagem um tanto que bizarra de uma stripper ruiva na Times Square. Uma fita colada logo abaixo a stripper trazia a mensagem "Feliz natal, seu filho da puta". Não demorei a conectar a façanha à Red e logo inseri o CD no drive do meu notebook. 
O iTunes abriu e "Theme From New York" começou a tocar sob a voz de Frank Sinatra. Na playlist, ainda haviam "That's Life" encerrada por "My Way", todas as suas favoritas do Sinatra. Eu gargalhei por alguns momentos e ouvi o CD inúmeras vezes.
Então decidi escrever finalmente sobre Red. Abri meu blog, nomeei aquele post como "Start Spreading the News" e me pus a escrever sobre o sujeito:

Mr. Red viveu intensamente. Ele amou, riu e chorou. Talvez tenha sido um fantoche, ou um indigente, mas também foi um pirata, um poeta, um peão e um rei de seu tempo. Tinha tudo que queria, quando queria e da forma que queria. Não importava se ia custar dólares ou dedos.
Porém, ironicamente, não posso atender completamente ao desejo de Mr. Red, senhoras e senhores. Não creio que ainda que ele está morto, mas gostaria de começar assim. Saiba que ele morre no final das contas e que essa história que estou prestes a contar para todos vocês não terá um final propriamente. Por quê? Vivo me perguntando isso também: Por que não tem final?
Red disse algumas coisas na última vez que o vi e acredito que, depois daquela conversa, haja apenas uma resposta, proferidas por ele mesmo naquela noite: A grandeza de uma vida inteira não cabe no universo.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

299 792 458

A doença mais grave para a mente humana é a preguiça. Ela gera a procrastinação, a perda de responsabilidade e gera um peso tão denso dentro do seu estômago que você fica estagnado no mesmo lugar até ela resolver dar uma trégua - se der.
Estou tentando evitar a maldita. Resolvi que esse ano seria um ano diferente e que tentaria fazer as coisas mais por impulso, na vontade e sem ficar me masturbando com possíveis acontecimentos que estavam logo ali, à um passo da realização. Pois bem, foi assim. Arranjei as atividades, ocupei-me. Surpresa tamanha foi quando descobri uma nova forma da doença. Tal essa, veio sorrateiramente, sem avisar e nem dar pistas. Deixou que eu me cansasse, estancasse toda minha ânsia no que eu percebi ser a mesma rotina de sempre, mas agora com várias atividades entrelaçadas.
Me fodi. Eu sei. Não precisa avisar.
Deixei livros, filmes, discografias de lado e aos poucos, fui atendo-me das tão suadas atividades que eu tinha proposto lidar. Voltei à estaca zero e isso foi desagradável. Durante aquele processo, pensei em escrever várias vezes, mas não tinha saco, nem paciência, nem cabeça, nem pensamento, nem bolas e muito menos disposição para isso. 
Parei no tempo. Parei como da outra vez em que por estar tão devagar e exponencialmente mais devagar a cada passo, o tempo não passava ou ele simplesmente não existia na minha perspectiva. Parei. Porém, agora, acelerei tanto, mas tanto que esqueci que quão mais rápido você vai, mais devagar o tempo passa.

Agora? Não sei. O mundo parece ter seguido seu curso, não estamos emparelhados. Normal.

sábado, 5 de julho de 2014

Little Boys

Quando a noite chegou mais fria e certeira do que as balas americanas, Aaron recostou seu corpo cansado e pesado sobre os paralelepípedos da ponte e contemplou o curso do rio. A fogueira fraca e insuficiente acessa há poucas horas por outros soldados alemães estava longe de manter Aaron aquecido. O soldado recosta sua cabeça raspada e cheia de cicatrizes na parede e fecha os olhos por um breve momento. Momento este que o fez lembrar do gosto do leite da fazenda dos pais e do pão da mãe.
Uma dor aguda no calcanhar puxa sua atenção. Ele abre os olhos, tira as botas e checa o ferimento inflamado de quatro centímetros de diâmetro no calcanhar.

- Vagabundos - resmunga.

Do uniforme já surrado, sujo e rasgado, Aaron tira uma pequena garrafa com a última bebida alcoólica que ele veria em vida. Leva um gole a boca e despeja todo o resto no ferimento estancado e sujo. Se contorce a principio, mas não chega a fazer barulho. Após colocar a bota novamente, Aaron volta a dormir.
O sol acordou Aaron. Não havia indícios de guerra e violência sob a ponte e a fogueira havia sido apagada pelos longos minutos notívagos. Também por longos minutos, apesar de acordado, Aaron permaneceu deitado. Seguindo a corrente do rio com os olhos, pôde notar à sua frente uma floresta de pinheiros enormes; a mesma cortada pelo rio em duas margens diagonais. Levantou-se e tirou o uniforme. Molhou as mãos na água morna do rio e levou ao rosto. Sentiu-se renovado por alguns segundos e então repetiu várias vezes.
Após finalmente decidir continuar com seu caminho, Aaron agacha e pega sua mochila. Mancando, ele saí da ponte que lhe acolheu durante a noite olhando para o pedaço de chão que havia guardado seu corpo cansado e suas vestes sujas. Via a ponte como uma casa, mesmo que por uma noite apenas. Porém, após a saída, o mesmo rio continuou seu companheiro por mais cinco horas de caminhada.


Após o cansaço atingir seu consciente, percebeu que era um ser de força estival. Pela noite, ele se sentira quase morto, as armas pesavam e o uniforme era um fardo. Agora pela manhã, com o sol no rosto e acordado, Aaron estava mais atento e até conseguia caminhar sem mancar tanto. Continuou em frente até o rio abraçar todo e qualquer chão que Aaron poderia passar. A floresta também parecia estar acabando, os pinheiros haviam desaparecido há alguns minutos e dado lugar a um pasto curto de rochas grandes. Olhou a sua volta um tanto que amedrontado, afinal, estava em campo aberto e ainda vestia seu uniforme nazista. Depois de mais de dois anos de guerra, um soldado não era mais apenas um soldado, era um sobrevivente, não importava o lado que defendia. Por um minuto, pensou em tirar o uniforme, mas recusou-se logo após. Deu um tapa para espantar a sujeira e continuou e escolheu uma nova rota. Após entrar novamente na floresta e começar a marcar território para não andar em círculos, Aaron se pôs a descansar por um momento. Tirou o cantil cheio da mochila e matou sua sede. Já era tarde quando ele resolveu sentar. Observou a natureza por alguns minutos e contemplou a paz da floresta tão intimamente compartilhada. Pensou até em acender seu último cigarro, mas percebeu que não tinha fogo. Pôs-se de pé e voltou a andar.


Horas mais tarde, o soldado se depara com uma fogueira acessa. Olha a sua volta e não enxerga ninguém. Rapidamente esgueirou-se para perto da chama e acendeu seu cigarro amassado. Por um momento, ele sentiu-se amador por estar em campo aberto, mas logo lembrou-se de quem ninguém era profissional nesse ramo, e que os profissionais ficavam atrás de paredes e locomoviam-se em tanques. Sentia-se cansado, muito cansado, tanto que se afastou da fogueira com receio de cair sobre a mesma caso desmaiasse.

O sol havia se posto quando as seis últimas horas de vida de Aaron chegaram. Ele estava recostado sob uma árvore quando um soldado americano cutucou-lhe com um revolver. Aaron acordou espantado e o soldado logo fez sinal para que ele se acalmasse.

- Esse é meu período de sorte - disse o soldado americano falando alemão com sotaque característico.

Aaron checou seus coldres e antes mesmo de tateá-los, ele avistou suas armas ao lado do soldado inimigo.

- Está sabendo da boa nova, filho? - pergunta o americano.

Aaron não responde.

- O führer comeu sua língua? - insiste o americano.

O soldado americano coloca o revolver em seu coldre e senta-se perto de Aaron. O soldado alemão não esboça reação, não tinha como, seu tornozelo doía demais.

- Qual a sua missão, soldado? - pergunta o americano - Não sei se você sabe, mas entrou em território francês.

- A França foi ocupada - diz Aaron.

- Ocupada por nós, eu creio, porque eliminamos todo e qualquer alemão nessa região na noite passada.

Aaron se cala.

- Diga-me, filho, qual seu objetivo aqui?

- Você vai me matar? Pois faça isso agora! - diz Aaron.

O americano sorri.

- Eu não posso julga-lo. Eu não posso dizer que você não tem o direito de seguir o que seu país apoia, mas ajudar na obstrução de outro povo? Não me parece muito elegante.

- E o que vocês estão fazendo com a gente?

- Vocês, alemães, são como um incêndio. Estamos apenas tentando aparta-lo para que não destruam mais nada. Não temos nada contra seu povo.

- Vocês são os santos dessa guerra. Se dizem os santos.

- Que guerra? - pergunta o americano.

Aaron não entende a pergunta. Irritado, saca uma faca que estava dentro do cano de sua bota. O americano se prostra para trás e põe a mão na arma presa ao coldre de couro.

- A guerra acabou, filho. Seu líder está morto e sua nação foi contida. Qual o sentido de resistir? - diz o soldado americano tirando a arma de seu coldre de couro.

Aaron joga a faca ao chão.

- Eu nasci na guerra - diz o alemão - Vi crianças, velhos, mulheres morrerem e durante esses anos matei mais homens do que conheci durante toda minha vida. Qual o sentido de me matar agora?

- Você é um sobrevivente. Não foram muitos que chegaram até aqui. Mas ainda assim é parte de um tumor.

Depois disso, o americano disparou contra a cabeça de Aaron que não reagiu. O americano fez uma rápida busca no corpo do alemão e não encontrou nada. Seguiu seu caminho logo após isso. Pôs-se a andar para o norte onde pretendia encontrar seu pelotão e ir à Bélgica para logo embarcar para seu país.
No meio da caminhada, ouviu alguns passos na floresta. Parou e observou a mata atento. Não encontrou nada. Talvez sejam animais, pensou.
Ao prostrar seu corpo a andar novamente, ouviu dividido em um segundo apenas o som de um rifle disparando alguns metros atrás de suas costas e uma dor agonizante na espinha. Caiu de joelhos e permaneceu paralisado de dor. O mundo havia se esvaído de sua mente, e tudo que ele pôde enxergar naquele misto de dor e confusão foi uma alucinação do soldado alemão com uma bala na testa e dizendo: Eu nasci na guerra.
Após poucos segundos, uma chuva de balas foram em direção ao corpo do soldado americano e uma em especifico atingiu sua orelha e saiu em seu pescoço o que derrubou o soldado ao chão. Soldados americanos saíram de suas posições quando atiraram, por engano, contra um soldado de sua própria tropa.
Antes de perder a consciência e falecer, o soldado americano proferiu:

- À guerra pertencemos.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Satã

Dentre todas as culturas existentes e já extintas, o mal, ou, se assim preferir, o Mal, sempre arranjou um jeito de ser personificado em algum ser, seja ele mitológico ou humanoide. São feitas várias comparações ainda nos dias de hoje para encontrar um cânone da história desses seres que representam o bem e o mal de formas heterogêneas. A falta de provas e, em contramão, a imensa quantidade de relatos e seguidores, criam uma dança estatística que sobe e desce a todo momento. Estatísticas essas que se tratam sobre qual verdade está sendo mais bem aceita no plano geral. 
Já há muito tempo é sabível e praticamente obrigatório que em toda história os personagens devem ter motivações que os levem atrás de seus objetivos. Se analisarmos nesse contexto, qual a motivação do bem e do mal retratados pelas religiões? Numa guerra sem precedentes e praticamente infindável, o bem e o mal lutam incansavelmente por interesses até então desconhecidos. Na maioria das vezes, o centro da luta tem um núcleo mútuo: o homem. É ele que sofre, que é inconsequente, inocente e é digno de conquistar seu perdão.
A dificuldade de estabelecer um ponto sólido está quando não temos uma verdade absoluta definida, apenas uma guerra injustificada em que nós somos quem tem que ficar sob a asa de alguém superior e mais poderoso.
Sempre encontrei o equilíbrio perfeito ao tentar não pensar em seres, em guerras e apenas em que no Universo existe apenas uma coisa: o Poder. Um meteoro de apenas dois quilômetros pode devastar seu país ou até mesmo seu continente, um mosquito te matar, uma estrela deixar de existir ou um copo cair da sua mão e espatifar no chão, é importante notar que as coisas podem acontecer. A distinção entre o que é bom e o que é ruim é totalmente culpa nossa. O bem e o mal, nesse contexto, não existem, eles são apenas parte de um sistema natural agora homogêneo, exponencial e irracional.
Outro ponto interessante para analisar é como o mal foi personificado e como ele é diferente se compararmos as versões de épocas, religiões e culturas diferentes. Para muitos, ao olhar para uma catástrofe na vida é suficiente para entender esse conceito. O sofrimento. Isso não precisa de uma imagem, ao contrário do bem que precisa ser personificado porque, como o saudoso George Orwell já nos mostrara, é muito mais fácil nos apegarmos à um de nós do que à um conceito. Outros enxergam o mal de outra forma; muitas vezes personificado em alguém de extrema beleza e que reluza o sucesso pessoal e a ostentação de aparência e liberdade de espírito e pensamento. Mas por que isso é errado? Todos querem ser bem sucedidos. O que conta aí é o infame desejo de se sentir maior, melhor e até mesmo uma imagem posta como boa referencia para outras pessoas. Isso vem em diferentes formas em questionamentos sobre sexo, por exemplo. Porém, apesar disso tudo, o mais comum é a esdrúxula imagem do ser forte, grande e de chifres enormes mais pesados que seu próprio crânio. Sempre referenciado com cores avermelhadas que lembram o sofrimento, o sangue e o fogo; um sentimento é não esperado por ninguém, um líquido que representa nossa vida e a continuidade da mesma e um elemento que nos enganamos ao dizer que podemos controlar, pois sem nossas faculdades, se torna uma das maiores ameaças à nossa espécie.
Sendo assim, o mal, ou seja lá qual for o nome que você dê, é um inimigo desconhecido e um problema que arranjamos para nós mesmos. Se ele existe ou não, isso é o de menos, mas de que forma estamos à trata-lo e de que forma ele pode ser considerado (à todos) cânone?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Honra

À beira da morte, após uma longa caminhada íngreme e sinuosa, ele finalmente avistou a enorme boca da caverna que avistou quando estava aos pés da enorme montanha que o separava do império japonês. Sua armadura estava com quase todas os suspensórios soltos, mas se mantinha junto ao corpo de Hiroshi com certa insistência inexplicável. Recostou-se numa rocha maior que seu busto e descansou.
Ao amanhecer, percebeu duas flechas quebradas nas costas. Causava-lhe uma dor terrível e excruciante ao tentar se mexer. Perguntou-se por um momento como conseguiu andar tanto. Resolveu não mexer no ferimento e banhou-se precariamente com um leito d'água que corria à caverna garganta adentro.
O sol tocou sua pele como sua mãe penteava seus longos cabelos. Respirou fundo por um momento ouvindo apenas o som da floresta e tentando imaginar seu reino do outro lado da montanha. Não sentia-se perdido, pelo contrário, sentia-se mais perto do que nunca da vitória. Talvez este tenha sido o momento mais tocante da vida de Hiroshi Inagaki. Ao caminhar caverna afora, sem forças suficiente para manter-se em pé, o soldado é traído pelos próprios membros causando uma queda brusca de pelo menos três metros de altura. Uma das flechas adentra seu corpo mais ainda. A queda deixou Hiroshi entre duas pedras enormes e com uma das pernas suspensas para o alto. Ele não sentia sua outra perna que parecia ter quebrado com a queda. Sua espada estava ao seu lado, ao alcance das mãos, mas nada podia fazer com ela. Por ali, ele permaneceu por dias.
Após cinco dias com pouca variação de posição corporal, Hiroshi começou a pensar que talvez nunca sairia dali. Tinha matado a sede com a chuva que caíra há duas noites e enganava o estômagos com alguns insetos afortunados. Sentia-se sujo e impotente. O mesmo sol que antes o lembrara da mãe, agora o fazia pensar sobre o inferno.
No sétimo dia, Hiroshi pensou em seu falecido mestre, o samurai Eiji Yoshikawa. Era, desde a morte de Yoshikawa, um ronin* e havia se tornado-se um poucos minutos antes da batalha com a aldeia inimiga cessar. As sábias palavras do mestre perpetuaram em sua mente e definiram seu destino dali para frente. 

O sonho mais persistente do homem é a honra, pois com ela o respeito vem junto. A morte de um Samurai deve ser honrada, pois em morte, o homem deve deixar esse mundo da mesma forma que viveu. Porém, poucos são dignos disso.

Lembra-se de perguntar o porquê de poucos serem dignos de morrer assim e recorda-se rapidamente da resposta de Yoshikawa.

Muitos acreditam que poderão, em morte, acompanhar a vida humanoide. Em morte, você deve se desligar do mundo e confiar seus atos, histórias e sua própria honra ao vento e esperar que o mesmo atinja gerações. Somente o homem que contemple tal desejo é digno de tamanha honraria.

Ao anoitecer do sétimo dia, pensou no império japonês efervescendo do outro lado da montanha. Pensou em sua mulher e nas delicadas mãos de sua mãe. Com uma última força e quase sucedendo a dor, retirou a perna suspensa e, quase sem senti-la, recostou-se a rocha.
Seu corpo estava febril quando ele cortou os últimos suspensórios da armadura. Percebeu em seu quadril um corte superficial e em seu ombro uma queimadura que por pouco não atingira a carne. Pegou sua espada e pressionou contra seu abdômen. 
Por um momento imaginou o som da cidade. As rodas das carroças de comerciantes contrabatendo com o paralelepípedo das ruas. O som das cozinhas mais quentes da Ásia. O arrastar de pés no chão de sua casa. Imaginou até o campo de batalha, agora vazio e silencioso. Pensou até em uma possível recuperação, mas provavelmente iria perder uma perna e os soldados da aldeia inimiga iram persegui-lo e isso poderia trazer consequências à sua família. Lembrou-se das regras infringidas contra seus deuses e deu-se motivos suficientes para abrir os olhos e encarar a última cor que veria no mundo. 
Pôs-se de busto ereto e terminou com seus dias em um preto que fundiu-se à luz interceptada por seus olhos.

*Ronin era samurai que não seguia a um daimyo (senhor de terras). Em geral é um solitário. Na cultura Japonesa, crê-se que todo homem segue um destino, uma linha. O Ronin por sua vez faz jus ao seu nome: Homem-Onda. Não tem sentido, nem destino (como as ondas do mar).

*Esse conto é baseado no livro Bushi, ainda em produção por mim, Danilo Silva.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Storm Comes Around

The storm brings the wind
The wind brings the night
The night brings the time
The time brings the end

Is the end an end for us
Or is the end
An end of us?
Is today a day

Or is today
What people say?

As the storm goes away
The day comes to fade
The sounds
The grey huge cloud

Whatever you've found