"Encontre alguém, e se dedique àquela pessoa" diz Mr. Red cuspindo a fumaça do cigarro.
"Tenho minha família" digo.
"Então, tem alguém" ele completa.
Mr. Red deixa o conforto de sua cadeira, se levanta e olha para mim seriamente.
"O que você faria?" ele pergunta.
"Perdão... Como assim, o que eu faria?"
"O que você faria por eles? O máximo."
Eu penso por tempo suficiente para Mr. Red perguntar mais.
"Você faria algo... socialmente errado? Você roubaria? Você mataria?" ele pergunta sem mudar sua expressão.
"Matar alguém?"
"Sim. Bang-bang! Direto na cabeça, miolos para todos os lados"
"Não sei"
"Você mataria seu melhor amigo?"
"Não! Claro que não" digo indignado.
"E se ele ameasse sua família?"
"Numa situação dessa é claro que haveria alguma... alguma... Alguma forma de resolver a hipotética situação sem termos que explodir ninguém"
"Danilo, meu amigo... Isso não é um filme. Ninguém é protagonista, ninguém tem diferentes graus de importância nessa história porque todos se acham importantes em seus inerentes universos. Se eu explodir sua cabeça agora, você parte dessa pra outra, mas isso não quer dizer que o resto das sete bilhões de pessoas irão também. Pelo contrário, Danilo, elas continuam e até mesmo as que são mais próximas à você"
"Eu não vou explodir a cabeça de ninguém"
Mr. Red me dá uma arma. Ele se vira e mexe numa gaveta perto da sua cômoda. De lá, ele tira uma pistola e aponta diretamente à mim.
"Eu vou atirar em você, quem é mais importante agora?" diz Mr. Red com a arma engatilhada e apontada para minha cabeça.
"Oh-oh-oh, cara, para que isso? Tira essa da minha cara, seu dedo pode esgorregar"
"Você tem três segundos" diz Mr. Red.
"Corta essa, Red"
Mr. Red atira no chão da sala.
"Um"
"Pare com isso"
"Dois"
"Seu desgraçado, estamos apenas conversando!"
"Três"
Eu grito e disparo apertando o gatilho três vezes à queima roupa em Mr. Red. Para minha surpresa, a arma estava sem munição.
"Seu filho da puta!" digo nervoso.
"O único que importa é você" diz Mr. Red tirando a pistola da minha mão.
Ainda estou assustado.
"Olhe para mim, Danilo"
Eu me recuso à primeiro momento, mas ele me obriga.
"O ser humano defende seus interesses inerentes e beneficiários. Mesmo quando ajudamos alguém, procuramos nos beneficiar. Porém, essa descrição, quando dada do jeito que a disse, nos faz pensar apenas no egoísmo em seu significado pejorativo. Mas, eu e você sabemos que se eu ajudar a velhinha da esquina a atravessar a rua, mesmo que não ganhe um real ao final da travessia e fique tranquilo quanto a isso, eu estarei sendo beneficiado. Talvez não por dinheiro, mas talvez pela minha auto-satisfação." diz Mr. Red apagando o cigarro.
"Auto-satisfação?"
"Sim, meu amigo, auto-satisfação. Isso é o que o ser humano mais procura, pois isso está em tudo que ele persegue. Sexo, trabalho, entretenimento, caridade, tudo que ele tenha interesse."
"E se eu não tiver interesse, mas tiver que fazer?"
"Esse é talvez o problema de termos tanto lixo no mundo. Fazemos, mas não nos importamos. Tanto faz. Mas isso é perfeitamente entendível quando você pensa que é impossível agradar à todos e criar um sistema onde todos fiquem bem e satisfeitos"
"Tudo isso por egoísmo?"
"Também. Mas a maioria é por sermos um montante de universos colidindo ao mesmo tempo - é assim que nossa raça funciona - e, por sermos assim, sempre acharemos que nosso ponto de vista é o melhor porque é dele que estamos sobrevivendo e, ou, procuramos sobreviver"
"Eu nunca acreditei em utopias mesmo"
Mr. Red joga seu cigarro no chão e pisa em cima. Ele caminha para a porta de saída, provavelmente está se encaminhando à sua casa.
"Eu não quero matar meu amigo, Red, não queria te matar agora."
"Você tem duas opções, meu amigo. A primeira é, torne essa pessoa alguém o suficiente para que você se dedique e que a troca seja mutua para ambos se considerarem indispensáveis. Ou, torne essa alguém que você quer fora da sua vida intima e corriqueira, não envolva ela nos seus assuntos"
"Então, devo matar mais de noventa por cento da humanidade?"
"Não. Você não precisa matá-los, trata-los mal, ignora-los. Mantenham eles a uma distancia em que consiga nota-los, fala-los, e ouvi-los, mas nunca deixe que eles o toquem, nem interfiram em você porque, uma vez que precise escolher entre você ou alguém com prioridade máxima na sua lista contra alguém dessa lista de pessoas que você considera neutros, você escolherá você. Sempre."
Mr. Red abre a porta e saí. Eu fico no meu sofá, boquiaberto pensando. Alguns segundos depois, ele volta.
"Esqueci meu kools" diz ele entrando novamente.
"Você me mataria?"
Ele não responde e saí. Após um passo depois da porta, com a mesma escondendo seu corpo e apenas a luz da rua definindo uma sombra de sua silhueta por debaixo da porta, ele diz:
"Você me nota aqui?"
"Sim"
"Você me deseja mal?"
"Não"
"Você consegue se comunicar comigo?"
"Sim"
"Você consegue me ouvir?"
"Sim"
"Então, meu amigo, levando em consideração que eu sou um ser humano, não me toque"
Após alguns passos, ouço a partida do carro de Mr. Red. Ele dirige para longe.
domingo, 14 de julho de 2013
domingo, 7 de julho de 2013
Doença
Estou doente e isso está me afetando demais. Fora a minha dicção, meus relacionamentos com outras pessoas estão sendo prejudicados. Não sei desde quando possuo esse tumor gigantesco dentro da minha cabeça que parece exprimir toda minha coerência num canto só atrapalhando tudo e acabando não dando prioridade a nada.
Me sinto mal e nauseado. Talvez isso seja um castigo. Desenvolvi algo contra meu próprio veneno, mas o mesmo está me fazendo mal. Ontem mesmo estive com uma pessoa especial. Ela é linda e já sacou que não sou dos mais ligados. Me senti um deficiente por não poder controlar minhas próprias ações, me senti estranho e meu corpo reagiu a estímulos inconscientes. Não presto atenção no que ela fala e vejo que isso a desaponta profundamente.
Por que logo eu tinha que ficar doente? E, se estou, qual a cura? As pessoas dizem para que eu deixe de ser um pouco cabeça dura e comece a aceitar mais as coisas como devem ser, mas eu não concordo com a maioria dessas coisas. Quero estudar, não namorar, quero ir ao cinema, não à festas, quero jogar vídeo-game, não nadar no clube.
Tenho uma pilha de coisas para fazer e milhões e milhões de desejos a realizar, mas nada disso sai do planejamento. Se estou sendo comandado pelo meu subconsciente, o mesmo anda procrastinando e isso está me atrapalhando. Com dezessete anos, me sinto o cara mais frustrado da face da terra e às vezes sinto vontade de esmurrar a parede feito o Robert De Niro em Touro Indomável, talvez ele também estivesse assim. Estou vazio, oco, e nada pode me mudar. Ao meu redor uma série de falsos estimuladores tentam me acordar desse longo pesadelo, mas, na minha cabeça, soam como os convites das prostitutas de Watchmen. Estou mal pra caralho, e se eu pudesse voltar, eu voltaria. Voltaria a ser criança, a criar estórias sem compromisso, voltaria à oitava série e faria tudo diferente. Talvez me dedicaria mais a escola e mais a religião, teria lido mais, mas de que adianta agora? Costumo dizer que devemos comer coisas que diminuam nossa expectativa de vida porque, essas sim, valem a pena. Pois então, desde sempre estive com uma lasanha enorme em baixo dos meus braços e sempre acreditei estar bem por ter ela, mas aos poucos vejo que apesar de ela parecer tentadora, ela está me deixando para baixo e acabando com minha expectativa de vida. Vale a pena? Bem que valia, me tornei o que me tornei por causa daquela lasanha, mas me dividi demais, não sei mais se sou norte, sul, leste ou oeste, tenho vários pontos de vistas diferentes e me enxergar por cada um deles me dá náusea me deixa triste, afeta minha dicção e escrita, acabo descobrindo que nem com uma lasanha de seis camadas posso ser feliz porque eu ainda não achei meu prato favorito, ou eu desisti, ou eu irei achar, ou eu sou incapaz de achar. Norte, sul, leste ou oeste? De onde estou olhando e qual a posição certa?
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