(Risada cansada, seguido de um bocejo gerado após um espreguiço)
Eu não sei. Eu não sei faz um tempo já. Não sei que dia é hoje, não sei em que século estamos. Faz um tempo que não abro a janela.
(Risada)
Há muitos "nãos" nessa frase. Minha mãe diria que eu estou sendo negativo. Eu vivo no negativo. Desde a energia e disposição à conta bancaria. Porém, minha mãe está errada. Há muito mais "sims" na minha vida do que parece.
(Bocejo)
Ah, eu posso conta-los, eu posso dita-los. Sim, eu estou realmente ferrado. Me sinto cansado sim. Sim, eu me sinto um nada. Eu poderia jogar isso tudo fora, apertar o backspace na minha história, mas isso seria nomenclaturado como suicídio. Sim, eu penso em suicídio. Parece a solução às vezes, e eu... hã... Eu não dou a minima para esse lance de honra quando se trata de suicídio.
(Preparo de voz, se acomodando)
Hã... Não irei me suicidar apesar dessa minha declaração. O ponto é que estamos vivendo uma grande depressão e isso não tem nada haver com economia, malditos historiadores. Eu quero dizer que todos, sem exceção, estão dentro dessa bolha. Ah, que coisa banal, que palavras tristes. Como eu desejei não entrar na bolha, mas só depois percebi que eu já estava dentro. Não tem como entrar, não tem como sair. Você já nasce nela.
(Voz ficando agressiva)
Estamos vivendo uma grande depressão. Saia as ruas. Compare-se. Todos estão caminhando para um sonho que não vale a pena. Coisas fúteis Quando a vida se resumiu a casa própria? A carros? A sexo? A dinheiro?
A culpa é do mundo e blá, blá, blá. Para o inferno com essa sua fala, seu crápula desgraçado. Tire todas as pessoas da rua, e verás que o mundo é calmo, denso por si só, e caminha num sentido que deveríamos seguir... A continuidade. O futuro. Em frente.
(risada chorosa)
Para onde estamos indo? Estamos indo para o fim. Para o final dessa história. Não para o futuro do futuro do futuro. Ah, pobres cartuchos, quando a nossa tinta acabar, pararemos de gerar isso tudo.
Por enquanto, eu só quero dormir. A merda está feita. E o verdadeiro herói de hoje, é aquele que pode ver isso, e pelo menos ser otimista. Acordamos todos os dias e fazemos essa merda acontecer.
Droga... Essa fumaça de ônibus, essa industrialização de tudo, esses sorrisos, bom dias, boa tardes, boa noites, estou com dor de cabeça.
(Risada alta, seguida de um choro gago)
Shhh, não quero acordar ninguém. A noite silenciosa é o exemplo de solução.