terça-feira, 6 de maio de 2014

Honra

À beira da morte, após uma longa caminhada íngreme e sinuosa, ele finalmente avistou a enorme boca da caverna que avistou quando estava aos pés da enorme montanha que o separava do império japonês. Sua armadura estava com quase todas os suspensórios soltos, mas se mantinha junto ao corpo de Hiroshi com certa insistência inexplicável. Recostou-se numa rocha maior que seu busto e descansou.
Ao amanhecer, percebeu duas flechas quebradas nas costas. Causava-lhe uma dor terrível e excruciante ao tentar se mexer. Perguntou-se por um momento como conseguiu andar tanto. Resolveu não mexer no ferimento e banhou-se precariamente com um leito d'água que corria à caverna garganta adentro.
O sol tocou sua pele como sua mãe penteava seus longos cabelos. Respirou fundo por um momento ouvindo apenas o som da floresta e tentando imaginar seu reino do outro lado da montanha. Não sentia-se perdido, pelo contrário, sentia-se mais perto do que nunca da vitória. Talvez este tenha sido o momento mais tocante da vida de Hiroshi Inagaki. Ao caminhar caverna afora, sem forças suficiente para manter-se em pé, o soldado é traído pelos próprios membros causando uma queda brusca de pelo menos três metros de altura. Uma das flechas adentra seu corpo mais ainda. A queda deixou Hiroshi entre duas pedras enormes e com uma das pernas suspensas para o alto. Ele não sentia sua outra perna que parecia ter quebrado com a queda. Sua espada estava ao seu lado, ao alcance das mãos, mas nada podia fazer com ela. Por ali, ele permaneceu por dias.
Após cinco dias com pouca variação de posição corporal, Hiroshi começou a pensar que talvez nunca sairia dali. Tinha matado a sede com a chuva que caíra há duas noites e enganava o estômagos com alguns insetos afortunados. Sentia-se sujo e impotente. O mesmo sol que antes o lembrara da mãe, agora o fazia pensar sobre o inferno.
No sétimo dia, Hiroshi pensou em seu falecido mestre, o samurai Eiji Yoshikawa. Era, desde a morte de Yoshikawa, um ronin* e havia se tornado-se um poucos minutos antes da batalha com a aldeia inimiga cessar. As sábias palavras do mestre perpetuaram em sua mente e definiram seu destino dali para frente. 

O sonho mais persistente do homem é a honra, pois com ela o respeito vem junto. A morte de um Samurai deve ser honrada, pois em morte, o homem deve deixar esse mundo da mesma forma que viveu. Porém, poucos são dignos disso.

Lembra-se de perguntar o porquê de poucos serem dignos de morrer assim e recorda-se rapidamente da resposta de Yoshikawa.

Muitos acreditam que poderão, em morte, acompanhar a vida humanoide. Em morte, você deve se desligar do mundo e confiar seus atos, histórias e sua própria honra ao vento e esperar que o mesmo atinja gerações. Somente o homem que contemple tal desejo é digno de tamanha honraria.

Ao anoitecer do sétimo dia, pensou no império japonês efervescendo do outro lado da montanha. Pensou em sua mulher e nas delicadas mãos de sua mãe. Com uma última força e quase sucedendo a dor, retirou a perna suspensa e, quase sem senti-la, recostou-se a rocha.
Seu corpo estava febril quando ele cortou os últimos suspensórios da armadura. Percebeu em seu quadril um corte superficial e em seu ombro uma queimadura que por pouco não atingira a carne. Pegou sua espada e pressionou contra seu abdômen. 
Por um momento imaginou o som da cidade. As rodas das carroças de comerciantes contrabatendo com o paralelepípedo das ruas. O som das cozinhas mais quentes da Ásia. O arrastar de pés no chão de sua casa. Imaginou até o campo de batalha, agora vazio e silencioso. Pensou até em uma possível recuperação, mas provavelmente iria perder uma perna e os soldados da aldeia inimiga iram persegui-lo e isso poderia trazer consequências à sua família. Lembrou-se das regras infringidas contra seus deuses e deu-se motivos suficientes para abrir os olhos e encarar a última cor que veria no mundo. 
Pôs-se de busto ereto e terminou com seus dias em um preto que fundiu-se à luz interceptada por seus olhos.

*Ronin era samurai que não seguia a um daimyo (senhor de terras). Em geral é um solitário. Na cultura Japonesa, crê-se que todo homem segue um destino, uma linha. O Ronin por sua vez faz jus ao seu nome: Homem-Onda. Não tem sentido, nem destino (como as ondas do mar).

*Esse conto é baseado no livro Bushi, ainda em produção por mim, Danilo Silva.

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