Quando a noite chegou mais fria e certeira do que as balas americanas, Aaron recostou seu corpo cansado e pesado sobre os paralelepípedos da ponte e contemplou o curso do rio. A fogueira fraca e insuficiente acessa há poucas horas por outros soldados alemães estava longe de manter Aaron aquecido. O soldado recosta sua cabeça raspada e cheia de cicatrizes na parede e fecha os olhos por um breve momento. Momento este que o fez lembrar do gosto do leite da fazenda dos pais e do pão da mãe.
Uma dor aguda no calcanhar puxa sua atenção. Ele abre os olhos, tira as botas e checa o ferimento inflamado de quatro centímetros de diâmetro no calcanhar.
- Vagabundos - resmunga.
Do uniforme já surrado, sujo e rasgado, Aaron tira uma pequena garrafa com a última bebida alcoólica que ele veria em vida. Leva um gole a boca e despeja todo o resto no ferimento estancado e sujo. Se contorce a principio, mas não chega a fazer barulho. Após colocar a bota novamente, Aaron volta a dormir.
O sol acordou Aaron. Não havia indícios de guerra e violência sob a ponte e a fogueira havia sido apagada pelos longos minutos notívagos. Também por longos minutos, apesar de acordado, Aaron permaneceu deitado. Seguindo a corrente do rio com os olhos, pôde notar à sua frente uma floresta de pinheiros enormes; a mesma cortada pelo rio em duas margens diagonais. Levantou-se e tirou o uniforme. Molhou as mãos na água morna do rio e levou ao rosto. Sentiu-se renovado por alguns segundos e então repetiu várias vezes.
Após finalmente decidir continuar com seu caminho, Aaron agacha e pega sua mochila. Mancando, ele saí da ponte que lhe acolheu durante a noite olhando para o pedaço de chão que havia guardado seu corpo cansado e suas vestes sujas. Via a ponte como uma casa, mesmo que por uma noite apenas. Porém, após a saída, o mesmo rio continuou seu companheiro por mais cinco horas de caminhada.
Após o cansaço atingir seu consciente, percebeu que era um ser de força estival. Pela noite, ele se sentira quase morto, as armas pesavam e o uniforme era um fardo. Agora pela manhã, com o sol no rosto e acordado, Aaron estava mais atento e até conseguia caminhar sem mancar tanto. Continuou em frente até o rio abraçar todo e qualquer chão que Aaron poderia passar. A floresta também parecia estar acabando, os pinheiros haviam desaparecido há alguns minutos e dado lugar a um pasto curto de rochas grandes. Olhou a sua volta um tanto que amedrontado, afinal, estava em campo aberto e ainda vestia seu uniforme nazista. Depois de mais de dois anos de guerra, um soldado não era mais apenas um soldado, era um sobrevivente, não importava o lado que defendia. Por um minuto, pensou em tirar o uniforme, mas recusou-se logo após. Deu um tapa para espantar a sujeira e continuou e escolheu uma nova rota. Após entrar novamente na floresta e começar a marcar território para não andar em círculos, Aaron se pôs a descansar por um momento. Tirou o cantil cheio da mochila e matou sua sede. Já era tarde quando ele resolveu sentar. Observou a natureza por alguns minutos e contemplou a paz da floresta tão intimamente compartilhada. Pensou até em acender seu último cigarro, mas percebeu que não tinha fogo. Pôs-se de pé e voltou a andar.
Horas mais tarde, o soldado se depara com uma fogueira acessa. Olha a sua volta e não enxerga ninguém. Rapidamente esgueirou-se para perto da chama e acendeu seu cigarro amassado. Por um momento, ele sentiu-se amador por estar em campo aberto, mas logo lembrou-se de quem ninguém era profissional nesse ramo, e que os profissionais ficavam atrás de paredes e locomoviam-se em tanques. Sentia-se cansado, muito cansado, tanto que se afastou da fogueira com receio de cair sobre a mesma caso desmaiasse.
O sol havia se posto quando as seis últimas horas de vida de Aaron chegaram. Ele estava recostado sob uma árvore quando um soldado americano cutucou-lhe com um revolver. Aaron acordou espantado e o soldado logo fez sinal para que ele se acalmasse.
- Esse é meu período de sorte - disse o soldado americano falando alemão com sotaque característico.
Aaron checou seus coldres e antes mesmo de tateá-los, ele avistou suas armas ao lado do soldado inimigo.
- Está sabendo da boa nova, filho? - pergunta o americano.
Aaron não responde.
- O führer comeu sua língua? - insiste o americano.
O soldado americano coloca o revolver em seu coldre e senta-se perto de Aaron. O soldado alemão não esboça reação, não tinha como, seu tornozelo doía demais.
- Qual a sua missão, soldado? - pergunta o americano - Não sei se você sabe, mas entrou em território francês.
- A França foi ocupada - diz Aaron.
- Ocupada por nós, eu creio, porque eliminamos todo e qualquer alemão nessa região na noite passada.
Aaron se cala.
- Diga-me, filho, qual seu objetivo aqui?
- Você vai me matar? Pois faça isso agora! - diz Aaron.
O americano sorri.
- Eu não posso julga-lo. Eu não posso dizer que você não tem o direito de seguir o que seu país apoia, mas ajudar na obstrução de outro povo? Não me parece muito elegante.
- E o que vocês estão fazendo com a gente?
- Vocês, alemães, são como um incêndio. Estamos apenas tentando aparta-lo para que não destruam mais nada. Não temos nada contra seu povo.
- Vocês são os santos dessa guerra. Se dizem os santos.
- Que guerra? - pergunta o americano.
Aaron não entende a pergunta. Irritado, saca uma faca que estava dentro do cano de sua bota. O americano se prostra para trás e põe a mão na arma presa ao coldre de couro.
- A guerra acabou, filho. Seu líder está morto e sua nação foi contida. Qual o sentido de resistir? - diz o soldado americano tirando a arma de seu coldre de couro.
Aaron joga a faca ao chão.
- Eu nasci na guerra - diz o alemão - Vi crianças, velhos, mulheres morrerem e durante esses anos matei mais homens do que conheci durante toda minha vida. Qual o sentido de me matar agora?
- Você é um sobrevivente. Não foram muitos que chegaram até aqui. Mas ainda assim é parte de um tumor.
Depois disso, o americano disparou contra a cabeça de Aaron que não reagiu. O americano fez uma rápida busca no corpo do alemão e não encontrou nada. Seguiu seu caminho logo após isso. Pôs-se a andar para o norte onde pretendia encontrar seu pelotão e ir à Bélgica para logo embarcar para seu país.
No meio da caminhada, ouviu alguns passos na floresta. Parou e observou a mata atento. Não encontrou nada. Talvez sejam animais, pensou.
Ao prostrar seu corpo a andar novamente, ouviu dividido em um segundo apenas o som de um rifle disparando alguns metros atrás de suas costas e uma dor agonizante na espinha. Caiu de joelhos e permaneceu paralisado de dor. O mundo havia se esvaído de sua mente, e tudo que ele pôde enxergar naquele misto de dor e confusão foi uma alucinação do soldado alemão com uma bala na testa e dizendo: Eu nasci na guerra.
Após poucos segundos, uma chuva de balas foram em direção ao corpo do soldado americano e uma em especifico atingiu sua orelha e saiu em seu pescoço o que derrubou o soldado ao chão. Soldados americanos saíram de suas posições quando atiraram, por engano, contra um soldado de sua própria tropa.
Antes de perder a consciência e falecer, o soldado americano proferiu:
- À guerra pertencemos.
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