domingo, 14 de julho de 2013

Egoísmo

"Encontre alguém, e se dedique àquela pessoa" diz Mr. Red cuspindo a fumaça do cigarro.
"Tenho minha família" digo.
"Então, tem alguém" ele completa.

Mr. Red deixa o conforto de sua cadeira, se levanta e olha para mim seriamente.

"O que você faria?" ele pergunta.
"Perdão... Como assim, o que eu faria?"
"O que você faria por eles? O máximo."

Eu penso por tempo suficiente para Mr. Red perguntar mais.

"Você faria algo... socialmente errado? Você roubaria? Você mataria?" ele pergunta sem mudar sua expressão.
"Matar alguém?"
"Sim. Bang-bang! Direto na cabeça, miolos para todos os lados"
"Não sei"
"Você mataria seu melhor amigo?"
"Não! Claro que não" digo indignado.
"E se ele ameasse sua família?"
"Numa situação dessa é claro que haveria alguma... alguma... Alguma forma de resolver a hipotética situação sem termos que explodir ninguém"
"Danilo, meu amigo... Isso não é um filme. Ninguém é protagonista, ninguém tem diferentes graus de importância nessa história porque todos se acham importantes em seus inerentes universos. Se eu explodir sua cabeça agora, você parte dessa pra outra, mas isso não quer dizer que o resto das sete bilhões de pessoas irão também. Pelo contrário, Danilo, elas continuam e até mesmo as que são mais próximas à você"
"Eu não vou explodir a cabeça de ninguém"

Mr. Red me dá uma arma. Ele se vira e mexe numa gaveta perto da sua cômoda. De lá, ele tira uma pistola e aponta diretamente à mim.

"Eu vou atirar em você, quem é mais importante agora?" diz Mr. Red com a arma engatilhada e apontada para minha cabeça.
"Oh-oh-oh, cara, para que isso? Tira essa da minha cara, seu dedo pode esgorregar"
"Você tem três segundos" diz Mr. Red.
"Corta essa, Red"
Mr. Red atira no chão da sala.
"Um"
"Pare com isso"
"Dois"
"Seu desgraçado, estamos apenas conversando!"
"Três"

Eu grito e disparo apertando o gatilho três vezes à queima roupa em Mr. Red. Para minha surpresa, a arma estava sem munição.

"Seu filho da puta!" digo nervoso.
"O único que importa é você" diz Mr. Red tirando a pistola da minha mão.

Ainda estou assustado.

"Olhe para mim, Danilo"

Eu me recuso à primeiro momento, mas ele me obriga.

"O ser humano defende seus interesses inerentes e beneficiários. Mesmo quando ajudamos alguém, procuramos nos beneficiar. Porém, essa descrição, quando dada do jeito que a disse, nos faz pensar apenas no egoísmo em seu significado pejorativo. Mas, eu e você sabemos que se eu ajudar a velhinha da esquina a atravessar a rua, mesmo que não ganhe um real ao final da travessia e fique tranquilo quanto a isso, eu estarei sendo beneficiado. Talvez não por dinheiro, mas talvez pela minha auto-satisfação." diz Mr. Red apagando o cigarro.
"Auto-satisfação?"
"Sim, meu amigo, auto-satisfação. Isso é o que o ser humano mais procura, pois isso está em tudo que ele persegue. Sexo, trabalho, entretenimento, caridade, tudo que ele tenha interesse."
"E se eu não tiver interesse, mas tiver que fazer?"
"Esse é talvez o problema de termos tanto lixo no mundo. Fazemos, mas não nos importamos. Tanto faz. Mas isso é perfeitamente entendível quando você pensa que é impossível agradar à todos e criar um sistema onde todos fiquem bem e satisfeitos"
"Tudo isso por egoísmo?"
"Também. Mas a maioria é por sermos um montante de universos colidindo ao mesmo tempo - é assim que nossa raça funciona - e, por sermos assim, sempre acharemos que nosso ponto de vista é o melhor porque é dele que estamos sobrevivendo e, ou, procuramos sobreviver"
"Eu nunca acreditei em utopias mesmo"

Mr. Red joga seu cigarro no chão e pisa em cima. Ele caminha para a porta de saída, provavelmente está se encaminhando à sua casa.

"Eu não quero matar meu amigo, Red, não queria te matar agora."
"Você tem duas opções, meu amigo. A primeira é, torne essa pessoa alguém o suficiente para que você se dedique e que a troca seja mutua para ambos se considerarem indispensáveis. Ou, torne essa alguém que você quer fora da sua vida intima e corriqueira, não envolva ela nos seus assuntos"
"Então, devo matar mais de noventa por cento da humanidade?"
"Não. Você não precisa matá-los, trata-los mal, ignora-los. Mantenham eles a uma distancia em que consiga nota-los, fala-los, e ouvi-los, mas nunca deixe que eles o toquem, nem interfiram em você porque, uma vez que precise escolher entre você ou alguém com prioridade máxima na sua lista contra alguém dessa lista de pessoas que você considera neutros, você escolherá você. Sempre."

Mr. Red abre a porta e saí. Eu fico no meu sofá, boquiaberto pensando. Alguns segundos depois, ele volta.

"Esqueci meu kools" diz ele entrando novamente.
"Você me mataria?"

Ele não responde e saí. Após um passo depois da porta, com a mesma escondendo seu corpo e apenas a luz da rua definindo uma sombra de sua silhueta por debaixo da porta, ele diz:

"Você me nota aqui?"
"Sim"
"Você me deseja mal?"
"Não"
"Você consegue se comunicar comigo?"
"Sim"
"Você consegue me ouvir?"
"Sim"
"Então, meu amigo, levando em consideração que eu sou um ser humano, não me toque"

Após alguns passos, ouço a partida do carro de Mr. Red. Ele dirige para longe.

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