sábado, 24 de agosto de 2013

Oitenta e Nove

Renoir tinha problemas, mas não como os seus. Renoir era francês, mas morava na Alemanha, esse, porém, não era o seu principal problema, era apenas o problema número quinze. O garoto já tinha feito uma lista citando todos os seus problemas e quando achou que havia terminado, ele contou oitenta e nove problemas. O primeiro da lista era um problema que Renoir enfrentava desde que se entendeu por gente. Ele não crescia. Após onze anos da sua vida de oitenta e nove problemas, Renoir resolveu perguntar à seu avô doente por causa do cigarro (Renoir não gostava de cigarros, e esse era seu problema número sete) o porquê de ele não crescer. O avô disse que o menino iria crescer, mas Renoir não acreditou, pois tinha o mesmo tamanho desde a sua memória mais antiga. O avô disse a Renoir que pedisse a mãe para que o levasse ao médico se ele estava se sentindo mal. Esse era o trigésimo problema de Renoir, ir ao médico. Ele não gostava de ir ao médico, mas era preciso, pois como saberia o porquê de não crescer se não fosse ao médico? A mãe custou a marcar uma consulta, mas Renoir pediu isso de aniversário e ela, enfim, o levou.
No dia, ele acordou antes do relógio, como sempre. Renoir não gostava de relógios e esse era seu problema número três. Os relógios assustavam Renoir, eles roubavam o tempo, acreditava o pequeno garoto francês. Outro ladrão de preciosidades intangíveis era a TV, Renoir não gostava de TV e esse era seu problema número quatro. A mãe o acompanhou até o médico e Renoir engoliu o pânico durante todo o caminho. O médico era gordo e tinha a barba por fazer. Renoir não gostava de homens barbudos, ele não gostava quando seu avô lhe dava um beijo no natal e a barba o pinicava irritantemente. Tudo irritava Renoir.
O médico mediu o pulso do garoto e também mediu sua altura. Após perguntas sobre alimentação, desempenho físico e horas decidas a entretenimentos feito TV, vídeo-games, livros e parques, Renoir foi liberado com o seguinte prognóstico: Falta de verduras e legumes na dieta diária  Renoir não gostava de comidas verdes, e esse era o problema oitenta e nove. Conforme as crianças cresciam, Renoir se trancou em seu quarto e começou a pintar. Ele gostava de pintar, mas era alérgico a tinta, e esse era seu problema número dois. Vestia luvas toda vez que pintava e sempre se assegurava de pintar apenas quando a mãe saia. Renoir não tinha pai e esse era seu problema número cinco. Ele não desejava feliz dia dos pais e entre os aniversários obrigatórios de todo ano, Renoir havia substituído o do seu pai pelo de seu avô.
Após um longo tempo, Renoir não havia crescido. Porém, apesar de Renoir estar sempre pensando em seus problemas, ele não conhecia a tristeza. Esse era seu problema número cinquenta e oito. O avô de Renoir dizia que a tristeza era como o muro de Berlim, e toda vez que o garoto ouvia a palavra tristeza ele imaginava o muro. A tristeza é um muro, disse Renoir em sala, é como o muro de Berlim. O pequeno garoto não entendeu o porquê de ser advertido após sua declaração na aula de literatura. A professora o puxou até a diretoria, onde ele se encontrou até a chegada de sua mãe. Renoir odiava falar em público e esse era seu problema número cinquenta, ele não gostava da diretoria e esse era seu problema número cinquenta e um. A mãe não trocou uma palavra sequer com o pequeno garoto durante o caminho até casa, Renoir não gostava do silencio, e esse era seu problema número seis.
Mais um ano se passara e Renoir não havia crescido. Ele olhou pela janela de seu quarto e viu os garotos fumando. Renoir parou de pensar em seus problemas e resolveu começar a contar o que gostava. Após algum tempo, ele tinha sua lista com exatos oitenta e nove itens. Renoir não crescia e essa era sua paixão número um. Renoir gostava de comprar livros e deixa-los ao lado de seu travesseiro para dormir com o cheiro de livros novos e essa era sua paixão número três.
Seu avô faleceu quando Renoir tinha treze anos e o garoto percebeu que o velho homem havia deixado uma imensidão de problemas para sua mãe. A mãe chorava e chorava dizendo que estava triste e tudo que Renoir pensava quando ouvia a palavra tristeza era no muro. Porém, durante algum tempo, Renoir não fez nada, até o dia em que ele descobriu que poderia ir até o muro de Berlim, encarar a tristeza. Renoir gostava de andar de carro e essa era sua paixão número quatro. Quando chegou ao local, Renoir se viu numa fria. Havia confusão e pessoas quebrando o muro. Renoir então entendeu que todos tinham problemas e que as pessoas estavam destruindo a tristeza, a famosa tristeza. O garoto não pôde fazer muito com o pequeno martelo que encontrou ao chão, mas com todas as suas forças quebrou o que deveria. Um medo enorme invadiu Renoir que achou que sua mãe iria brigar por estar de roupas sujas e pelo sumiço. Quando chegou em casa, encontrou sua mãe chorando, mas um sorriso invadiu o rosto dela e dele quando sua mãe disse: O muro caiu.
Renoir não sabia que a tristeza era tão ruim e que após ele quebrar a tristeza com um martelo, sua mãe arranjaria um emprego e com o dinheiro lhe traria remédios amargos e legumes e verduras (não verdes, pois ele não gostava). Renoir então se sentiu orgulhoso e após anos e anos não cresceu tanto, mas cresceu o suficiente para contar aos filhos que teve com Melaine que quando ele tinha a idade dos garotos quebrou a tristeza com um martelo e assim as crianças deveriam fazer.

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