sábado, 14 de julho de 2012

Fucking pigs

Odeio pessoas que comem de boca aberta ou que fazem sons perceptíveis aos meus ouvidos. São como interferências na minha estação de rádio exclusiva. Há muitas interferências na minha cabeça, impossibilitando que eu continue com minhas notas mentais e meus monólogos diários.
Um homem, quarenta e cinco anos, pastor, marido, pai, dono de uma vida normal. Ele está morto. Traumatismo cranioencefálico causado por um martelo. Sangue. Muito Sangue. É impossível caminhar calmamente, não se preocupar em não sujar os sapatos. Ele morreu de olhos abertos olhando para o teto branco. Ele está em paz agora? Ele morreu acreditando no que acredita? Deus? Dio? God? Em que língua a morte fala? O que ela nos conta na hora h? Uma pena não termos a resposta.
Com os miolos e as vergonhas expostas, o pastor olha fixamente para o teto com uma expressão sem vida e torta. Ele sentiu dor? Sua alma está ao meu lado agora compartilhando meu monólogo? Eu duvido.
Um homem esbarra em mim, o café é quase derrubado na minha camiseta nova e um "ooups" substitui o pedido de desculpas. Olho para ele inexpressivo. O homem leva o café até a boca fazendo um barulho repugnante e irritante. Ele arrota disfarçadamente e pega o relatório. Filthy pig.
O pastor continua no chão sendo fotografado por legistas e investigadores. As janelas e cortinas são fechadas para que possa ser revelado mais algum tipo de sangue no resto da casa. Flashes e mais flashes no ambiente. Lanternas especiais. Dor de cabeça. O ambiente está parecendo uma boate de Miami, só nos falta o êxtase. Continuo andando em frente, entro em um quarto e me deparo com uma mulher na cama.
Trinta e nove anos, esposa, mãe, feliz. Morta do mesmo jeito que o marido. Ela está deitada sob a cama, nua de braços abertos e pernas cruzadas. Seria esta alguma referencia bíblica?

Ouço meu nome e volto para onde estava. A quem pertence a voz feminina me chamando. Volto e o corpo não está mais lá. Não há mais pessoas na cena do crime. Onde está o sangue? Corro de volta ao quarto. Onde está a mulher? Todos se foram.
Continuo ouvindo meu nome.
Abro a porta da frente, mas não me deparo com o sol e nem com a rua, me deparo com mais um comodo, um corredor longo e escuro. Ando em frente e me deparo com uma porta. Ouço meu nome mais claramente. Toco a maçaneta. Flashes. Um corpo masculino esquartejado numa maca. Flashes. Uma mulher em cima da cama, nua e morta. Flashes. Eu coberto de sangue. Flashes. Eu sei quem são essas pessoas. Flashes. Abro a porta. Milhões de flashes, como se fossem milhões de câmeras. Flashes.


- DANILO, porra! - chama um dos meus colegas de trabalho e então eu percebo que estava apenas preso em um devaneio.




Oh, pego em mais um de meus devaneios. O gordo ao meu lado não está mastigando seu hambúrguer, e sim mascando-o. Muitas pessoas estão falando ao mesmo tempo. Assuntos fúteis. Eu acabei de matar a todos em minha cabeça. Fora um massacre. Esbanjei e aproveitei a minha raiva.


- Você estava dormindo? Te chamei quase vinte vezes. Achei que você tinha bebido muita coca-cola. Comeu demais? - pergunta o colega.
- Estou bem. Eu estava apenas distraído.
- Eu só quero dizer que já enviei aquele documento que você formulou para o chefe.


Well done, ficou com todo meu crédito.


- Ele disse que poderá assinar e enviar em três dias.


Eu poderia lhe matar em três segundos.


- hm, isso é bom - digo eu.


O massacre que eu acabei de vivenciar em minha cabeça foi cometido por mim. Não tenho desejo por sangue. Mas a morte vem em devaneios às vezes como se fossem metáforas para o que está realmente acontecendo.
Treze e trinta da tarde. Um gole de Coca-cola. Volto ao trabalho, longe do gordo nojento, só eu, e minha estação sintonizada e sem interferências.

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