sábado, 7 de abril de 2012

Conversa a dois

- Não há por que temer a morte - disse o garoto de olhos claros.
- Como não? Watch your mouth, boy - Exclamou a garota ruiva.
- Se a vida é um aglomerado de dores e preocupações sem sentido, por que temer a morte que, claramente, é o livramento para tudo isso?
- Deixar de viver não seria...
- Ruim? Oh, claro que não, my piece of rainbow. A ideia de morrer é até tentadora.
- Gosh, não acredito nisso.
- Sabe por quê?
- Por que o quê?
- O porquê de você não acreditar que a morte pode ser uma coisa boa.
- Por quê?
- Porque a morte tem uma fama ruim.
(risos por parte da ruiva)
- Sim, é sério. A morte é como uma barata.
- Mas você odeia baratas.
- Sim, eu odeio baratas. Porém, certa noite, eu fui a cozinha beber um copo d'água e estava tudo escuro. Senti alguma no meu pé, mas como tinha muitas coisas jogadas no chão, eu não dei atenção. Quando liguei a luz para arrumar tudo, deparei-me com uma barata. Sabe o que aconteceu a seguir?
- Você gritou?!
(risos)
- Não, não. Eu deixei-a sair sozinha do meu pé e o melhor de tudo é que ela não fez nada.
- Mas a barata é suja, que nojo.
- Por isso a comparação da tal com a morte.
- A morte é suja?
- Sim, e como. Ela leva nossos entes queridos embora, mas, talvez, e por algum motivo, ela não seja tão horrível assim. Talvez uma outra pessoa tivesse o mesmo pensamento que o meu e quisesse morrer, mas nós, inseridos em terceira pessoa na história, interpretamos mal a morte, coitada.
- Eu ainda não quero morrer.
- Ah, sim... Isso, my piece of rainbow, é porque você ainda tem medo da barata.
(expressão de indagação e surpresa por parte da garota ruiva)

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